terça-feira, 8 de junho de 2010

Adauto Lourenço mentindo pelo criacionismo

Já falei sobre esta nobre criatura (?) antes no fomigerado* prêmio TOP FIVE de desonestidade intelectual de criacionistas brasileiros.

* FOMIGERADO = neologismo semelhante a famigerado, mas que deriva de FOME em vez de fama, dadas as circunstâncias de falta de nutrição intelectual do indivíduos considerados.

A seguir, a nova estrepolia do sr. ‘mestre’ Adauto Lourenço. Mas antes, vamos ver de onde ele tirou a informação para distorcer.

Ano passado, em comemoração aos 200 anos de nascimento de Charles Darwin e 150 anos de seu magnum opus, a revista científica Nature lançou vários materiais de DIVULGAÇÃO (ou seja, materiais que podem ser entendidos por leigos em biologia [como o Adauto], por terem menos jargão técnico) da evolução biológica, um dos quais, uma compilação de várias pesquisas em biologia evolutiva, eu traduzi e publiquei no Evolucionismo.org com o nome 15 joias da evolução. Nenhum criacionista apresentou qualquer refutação relevante a esta obra de divulgação da revista científica que tem um dos maiores impactos do mundo (existe um número proposto por organizações privadas para avaliar a relevância de publicações científicas, chamado “fator de impacto”, e a Nature é um dos periódicos com o maior fator de impacto).

Agora em 2010 a última edição da revista científica Nature veio, como de praxe, lotada de artigos que assumem que a evolução biológica é um fato. Mas o sr. Adauto Lourenço, físico, leigo em biologia, acha que um desses artigos faz o exato oposto de corroborar a evolução:

adauto_lourenço_mentira

O artigo ao qual o nobre hominídeo se refere tem este título e estes autores:

Experimentally assessing the relative importance of predation and competition as agents of selection
[Tradução livre: Avaliando experimentalmente a importância relativa da predação e da competição como agentes da seleção]

Ryan Calsbeek & Robert M. Cox
(Department of Biological Sciences, Dartmouth College, Hanover, New Hampshire 03755, USA)

Eu poderia rebater a coprolalia do sr. Adauto Lourenço com o título do artigo. Mas vou fazer melhor. Traduzo o resumo do artigo que consta na Nature. O resumo já cita vários outros artigos científicos, mas vou omitir os números das citações por estética. Aí vai:

Experimentos de campo que medem a seleção natural em resposta a manipulações do regime seletivo são extremamente raros, mesmo em sistemas onde a base ecológica da adaptação foi estudada extensivamente. A radiação adaptativa [ou seja, o conjunto de sucessivas especiações, sucessivas origens de novas espécies] dos lagartos caribenhos do gênero Anolis tem sido estudada por décadas, levando a previsões precisas sobre a influência de agentes alterativos de seleção natural em campo. Aqui nós apresentamos evidências experimentais para a importância relativa de dois agentes putativos de seleção na formação da paisagem adaptativa em uma radiação insular clássica [desde Darwin sabe-se que ilhas promovem a origem de novas espécies, como no caso dos tentilhões das Galápagos, e neste caso lagartos caribenhos]. Nós manipulamos populações do lagarto marrom Anolis sagrei** em ilhas inteiras, para medir a importância relativa da predação versus competição como agentes da seleção natural. Excluímos ou incluímos aves e cobras predadoras em seis ilhas que variavam de baixa a alta densidade populacional de lagartos, e então medimos as diferenças subsequentes no comportamento e a seleção natural em cada população. Os predadores alteraram o comportamento de empoleirar-se dos lagartos e aumentaram sua mortalidade, mas os tratamentos de predação não alteraram a seleção em características fenotípicas. Alternativamente, aumentar experimentalmente a densidade da população fez crescer dramaticamente a força da seleção de viabilidade favorecendo maior tamanho corporal, maior comprimento de membros e maiores níveis de estâmina. Nossos resultados para A. sagrei são consistentes com a hipótese de que a competição intraespecífica é mais importante que a predação na formação da paisagem adaptativa para características cruciais para a radiação adaptativa dos ecomorfos de Anolis.

** O simpático lagartinho Anolis sagrei, inclusive, consta na sétima das 15 joias da evolução, divulgadas, como disseram os editores da Nature em janeiro de 2009, para mostrar “que a seleção natural é um fato, da mesma forma que é um fato que a Terra orbita o Sol”.

Concluo com um recadinho para o nobre euteleostômio Adauto Lourenço:

O senhor MENTE. Pior: o senhor MENTE para ganhar dinheiro. Pior: o senhor MENTE para esconder a verdade. Como consegue deitar vossa vazia cabecinha em vosso pobre travesseiro todos os dias à noite e dormir sabendo do fato de que é um MENTIROSO da pior ESPÉCIE? (E aqui, não me refiro à espécie Homo sapiens, cuja maioria de seus constituintes costuma ser mais nobre que o senhor.)

Como todos os outros criacionistas que citei no TOP FIVE, o Adauto é um PARASITA da literatura científica. Em vez de produzir por contra própria algum estudo mostrando evidências de que a vida foi criada ou projetada, estes criacionistas distorcem publicações científicas de revistas como a Nature.

A verdade precisa da mentira para ser defendida? Se não, quem está com a verdade, os criacionistas ou aqueles que aceitam o fato de que os seres vivos mudam?

13 comentários:

boboniboni disse...

Esse criacionista é caso pra internação. Inventando notícia.

Erick Fishuk disse...

Olá! É incrível como a cara de pau de muitos pode exceder sua própria dimensão corporal!... Aliás, gostei do "fomigerado", não sei se vai pegar, mas é bem espirituoso!... Abraços, e viva a honestidade intelectual! ^^

Elyson Scafati disse...

Eutelostômio? Vc tem certeza Eli?

Não ofenda os bichinhos...

Eu diria que Adauto está mais para um cocô moldado em forma de humano. Este cara realmente veio do barro saído por meio de um esforço do projetista inteligente.

Eli Vieira disse...

Elyson, todos nós somos euteleostômios.

Elyson Scafati disse...

É que como não sou biólogo (sou engenheiro e físico) achei que eles fossem só os peixinhos pelo que andei consultando.

Mas grato pela informação.

Eu odeio muito a desonestidade dos criacionistas e de sua versão requentada os proponentes do DI (mais desonestos que os criacionistas).

O pior é que eles dizem que a gente é ignorante quando os igualamos. É mais um exemplo da má fé desses caras, pois eu fiz uma pesquisa a fundo sobre o tema e encontri as raízes criacionistas do DI.

Criacionistas dizem foi deus e ponto.

Proponentes do DI dizem que um designer está por trás de tudo, pois o design é evidente na natureza.

Mas, os bacanas sempre se recusam a tratar do personagem dizendo que a sua teoria[SIC] fala do design e não do designer.

Até por trás do universo está o tal do designer (aqui é o meu mundo física quântica e astronomia. Isso não lhe sugere que o tal designer tenha vindo de outro universo and so on? Mas falar sobre o tal é proibido... e depois nós é que somos ideologizados, dogmáticos, tacanhos, cegos, ignorantes, religiosos dentre outros adjetivos.

É muito para a cabeça!!!!!

grande abraço

Elyson Scafati disse...

PS. "fomigerado" foi hilário!!!! Concordo com o Eric.

Dump de Memória disse...

Vendo o Adauto, vejo que realmente descendo do *macaco*.

Já que, algumas pessoas, ainda não evoluiram suficientemente.

É como a história do macaco-rei, e seus chimpanzés. O Macaco Rei, tornou-se Rei, porque ele começou a dizer coisas que todos admiravam, mas que era mentira.

E seus súditos, o adoravam, como um macaco-deus.

Mas na verdade, este macaco nada tinha de *deus* ou de *rei*, ou seja, era um grande espertalhão.

Assim eu vejo o Adauto. Mas o pior, não seria isto, ja que o Adauto é um embuste.

O pior, é que, mesmo supostos *pastores* renomados, mesmo com todas as provas cabais deste pilantra-criacionista, ainda o veneram com o macaco-deus.

É como diz o site da desciclopedia sobre você digitar evangélico no google.

Affffff.....

A.Bruinje disse...

Alguém me responde pq eu ainda não conhecia este blog?!

Realmente, gastar tempo para falar do Adauto não vale a pena.

Pior é saber que tem familias inteiras de amigos conhecidos intimos meus que congregam e "ofertam" em uma igreja que financia esse cara. E ele faz de besta todo o povo crente leigo da igreja.

Ah, parabéns pelo blog!

Eli Vieira disse...

Valeu, Bruinje!
Abraço!

Leonardo Marques disse...

qualquer discussão pode ser considerada valida...

porém, as pessoas se mostram insuficientemente inteligentes quando afirmam que crentes são leigos, há um amigo que postou, concerteza a "crentes" com uma formação muito superior a sua...

só um detalhe... Deus não está relacionado a ciencia, e sim, a fé...
isso basta..

A.Bruinje disse...

Gostaria de saber aonde em meu comentário que eu afirmei que todo crente é leigo?
Afirmei, sim, que ele [Adauto] faz de besta todo o povo crente leigo. E não todo o povo leigo que são os crentes.
Para quem tiver disposto a tirar a prova recomendo assistir suas palestras [facilmente encontradas no youtube], ler seu livro, e dar uma procurada básica no conteúdo dos comentários de crentes a seu respeito.

Agora, quanto ao domínio compreendido pela ciência ou pela fé. Sugiro "Pilares Do Tempo - Ciência e Religião na plenitude da vida", ed Rocco, 2002." Obviamente de Stephen Jay Gould.

Parafraseando ele próprio: "A ciência estuda o céu; A religião, como chegar ao céu"
Com certeza não é a única opção de posicionamento com relação ao assunto. Mas sem dúvida não é você, em uma página de blog, que vai bater o martelo a respeito do que Deus está ou deixa de estar relacionado à.
Questão que definitivamente NÃO é "SÓ" um detalhe.

Erick Fishuk disse...

Caro Bruinje (Brãinhe? holandês? :P), como estou inscrito nessa postagem, acompanhei os últimos comentários e não pude deixar de falar sobre o livro do Gould, ainda que só tenha lido o "Preâmbulo". É interessante que também se interesse pelas relações ciência-religião! :)

Depois que li "Deus, um delírio" pela terceira vez, há mais ou menos um mês, fiquei curioso em conhecer pessoalmente o tal argumento do MNI, já que cientistas nunca se contentam com apenas uma versão dos fatos ;) Terça retrasada, finalmente achei o "Pilares" disponível na biblioteca do meu instituto, e no fim de semana li o "Preâmbulo", mas por causa dele (e, incrivelmente, não por causa de Dawkins) quase desisti de ler o resto. Só vou ler porque a pulga ainda pica minha orelha ^^

Só aí achei três problemas que vão contra minha visão particular. O primeiro (p. 12) é o de considerar que a validade dos princípios éticos não advém do material da ciência. E vem de onde, então? Como uma coisa pode ser avaliada por critérios exteriores a ela? Isso não infringe o próprio MNI? Então, é das religiões que se deduz que a bomba atômica é uma merda, ainda que a mesma tecnologia pode ser usada na medicina? Eu já penso que o material da ciência passa pela filosofia (que julgo ser uma espécie de "paraconhecimento") e volta pra ciência com a reflexão devida. Não se pode julgar o conhecimento objetivo (ciência) conforme o subjetivo (religião), mas deve haver relação dialética de cada forma de conhecimento com a filosofia.

Erick Fishuk disse...

O segundo (p. 13) é o de que a religião seja adequada para falar de moral. Em primeiro lugar, moral é algo que se relaciona com conhecimento objetivo, e não subjetivo, porque trata da relação de pessoa pra pessoa. Assim, como usar critérios subjetivos para legislar sobre o mundo objetivo? Em segundo lugar, mesmo que a subjetividade pudesse dar a palavra final em questões morais, a religião não é mais a melhor forma de trabalhar a subjetividade. Já está ultrapassada e contribui mais ainda para aumentar a confusão entre mundos subjetivo e objetivo. Ela mistura os procedimentos dos dois âmbitos, sem contar que, também pras questões de moral, é um atraso só.

Por fim (p. 16), entendi que tacitamente Gould pensa que um cientista não pode tratar de questões de moral, nem o religioso pode tratar de questões naturais. Se pensarmos na divisão institucional moderna entre ciência e religião, sim. Mas se num futuro hipotético, aquele do comunismo em que o ser humano será polivalente, essa divisão sumir, nós teremos a plena realização por meio não da confusão entre subjetividade e objetividade, mas da atuação dialética entre elas, ou seja, elas agem inseparadamente, mas podem ser bem distinguidas. Em outras palavras, não haverá mais cientistas e sacerdotes; todos serão cientistas em prol da humanidade e cada um será o sacerdote de si mesmo.

Espero que em outras oportunidades eu possa esclarecer essa "maionese", caso tenha sido muito obscuro. Mas eu não li o livro inteiro, portanto minha opinião pode mudar. Abraços!

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