sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Óvulos e espermatozoides humanos rudimentares produzidos a partir de células-tronco


Por David Cyranoski, Nature News. Tradução de Eli Vieira

Um feito atingido pela primeira vez em humanos poderia ser um passo na direção da cura da infertilidade.

Pesquisadores israelenses e britânicos criaram espermatozoides e células precursoras de óvulos numa placa a partir das células da pele de uma pessoa. A façanha é um pequeno passo na direção de um tratamento para a  infertilidade, embora possa enfrentar controvérsias significativas e empecilhos regulatórios.

O experimento, publicado online na revista Cell em 24 de dezembro¹, recria em humanos parte dos procedimentos primeiro desenvolvidos em camundongos, nos quais células chamadas de células-tronco pluripotentes induzidas (iPS) — células ‘reprogramadas’que podem se diferenciar em quase qualquer tipo de célula — são usadas para criar espermatozoides ou ovócitos que são subsequentemente manipulados para produzir embriões por fecundação in vitro.

Em 2012, o biólogo especialista em células-tronco Mitinori Saitou, da Universidade de Kyoto, Japão, junto a seus colaboradores, criou as primeiras células germinativas primordiais artificiais (PGC's)². Essas são células especializadas que emergem durante o desenvolvimento embrionário e mais tarde dão origem a espermatozoides ou ovócitos. Saitou os fez numa placa, começando com células da pele reprogramadas para um estado similar ao embrionário através da tecnologia de células iPS. Os cientistas também conseguirem atingir o mesmo resultado começando com células-tronco embrionárias.

Embora suas células não pudessem se desenvolver além desse estágio precursor na placa, Saito descobriu que se as colocasse em testículos de camundongo elas se maturariam em espermatozoides, e, se as colocasse em ovários, maturar-se-iam em ovócitos funcionais. Ambos espermatozoides e ovócitos poderiam ser usados para fertilização in vitro.

Esforços para projetar gametas similarmente funcionais em humanos produziram células parecidas com PGC's, mas com tal baixa eficiência — taxa de sucesso em transformar células-tronco em gametas — que era difícil para outros tentarem expandir o trabalho. Esforços anteriores também demandavam a introdução de genes que poderiam tornar as células inúteis para o ambiente clínico.

Agora uma equipe liderada por Azim Surani, da Universidade de Cambridge, Reino Unido, e Jacob Hanna, do Instituto Weizmann de Ciência em Rehovot, Israel, replicou a parte in vitro — a “primeira metade”, diz Hanna — dos esforços de Saitou em humanos.

Alta eficiência

A chave para o sucesso dos biólogos foi encontrar o ponto de partida correto. Uma grande dificuldade em repetir o feito em humanos era o fato de que as células-tronco de camundongos e as de humanos são fundamentalmente diferentes. Células-tronco de camundongos são ‘ingênuas’ — fáceis de influenciar para qualquer trajetória de diferenciação — enquanto células-tronco humanas são ‘preparadas’ de uma forma que as torna menos adaptáveis.

Mas Hanna percebeu que essas diferenças poderiam ser superadas por ajustes nas células, como ele e seus colaboradores relataram em 2013.³ Ele e sua equipe desenvolveram um modo de fazer células-tronco humanas que eram ingênuas como as dos roedores. “Na primeira vez que usamos aquelas células com o protocolo de Saitou — bum! Conseguimos PGC's com alta eficiência”, diz ele.

Trabalhando juntos, Surani e Hanna conseguiram usar células-tronco embrionárias e células iPS, tanto de homens quanto de mulheres, para fazer células precursoras de gametas com 25-40% de eficiência.

“É estimulante que os laboratórios de Surani e Hanna tenham encontrado uma forma de gerar células da linha germinativa com a mais alta eficiência já relatada”, diz Amander Clark, uma especialista em biologia reprodutiva na Universidade da Califórnia, Los Angeles.

As células têm muitas das características de células germinativas primordiais. Em particular, seu padrão ‘epigenético’ — [o padrão de] modificações químicas aos cromossomos que afetam a expressão gênica — era similar aos de células germinativas primordiais. A equipe comparou marcadores protéicos em PGC's artificiais com os de PGC's reais coletadas de fetos abortados e descobriu que eram muito semelhantes.

“São tão similares às PGC's humanas quanto as PGC's [artificiais] de Saitou são às PGC's reais de camundongo, diz Hanna.

Saitou diz que os insights sobre mecanismos oferecidos pelo artigo provavelmente vão estimular os esforços para entender mais a fundo e controlar esse processo. Particulamente em humanos, uma proteína chamada SOX17 parece ter um papel-chave que em camundongos é desempenhado por uma proteína diferente chamada Sox2.

Saitou, que também está trabalhando para desenvolver PGC's humanas em placa, chama a descoberta de “interessante” e diz que, no geral, o processo de criar tais células “é muito mais claramente definido comparado ao trabalho anterior, mais ambíguo, e portanto será um bom fundamento para investigações futuras”. Clark concorda: “É um insight mecanístico especial sobre o desenvolvimento da linha germinativa humana que torna este artigo singular”, diz ela.


Muitas incógnitas

Em camundongos, o próximo passo é introduzir as PGC's projetadas em testículos ou ovários, para completar a ‘segunda metade’ do processo de Saitou, seu desenvolvimento em espermatozoides e ovócitos funcionais.

Mas Hanna diz que ele e seus colaboradores “não estão prontos para tentar isso” em humanos, e outros concordam que há ainda muitas incógnitas para introduzir as PGC's artificiais em humanos.

Ele diz que os cientistas estão também considerando injetar as PGC's artificiais humanas em testículos ou ovários de camundongos e outros animais, ou tentar o experimento como um todo em primatas não-humanos. Ele diz que os esforços contínuos de Saitou e outros para completar o processo do desenvolvimento de espermatozoides e ovócitos de camundongos in vitro poderia levar a uma receita que pode ser adaptada para humanos.

“Ainda estou organizando meus pensamentos. Veremos depois que o artigo for publicado o que a comunidade [científica] pensará”, diz Hanna.

Clark diz que reguladores devem dar caminho para os experimentos humanos que serão necessários para levar a tecnologia para as clínicas e potencialmente permitir que alguns homens e mulheres estéreis tenham filhos. Nos Estados Unidos, por exemplo, a lei proíbe o financiamento federal da criação de embriões humanos para propósitos de pesquisa, algo que seria necessário para testar a nova tecnologia. As restrições “precisam ser revogadas e substituídas por regras universais sobre como fazer essa pesquisa de forma ética e segura”, diz ela.

Em princípio, o processo poderia até mesmo ser usado para gerar óvulos do corpo de um homem. Esses poderiam ser fertilizados in vitro pelo espermatozoide de outro homem e o embrião resultante poderia então ser implantado numa mãe substituta — permitindo a dois homens ter um filho biológico juntos. Mas as dificuldades técnicas seriam formidáveis: em particular, homens não têm ovários nos quais as células precursoras poderiam ter a chance de maturar em óvulos. Além disso, a ideia com certeza enfrentaria polêmica.

“É muito importante enfatizar que enquanto esse cenário poderia ser tecnicamente possível e factível, é remoto neste estágio [da pesquisa] e muitos desafios precisam ser superados”, diz Hanna. Permitir que duas mulheres tenham um filho biológico juntas parece ainda mais remoto, acrescentam os autores, porque apenas homens têm o cromossomo Y, que é essencial para a produção de espermatozoides.

[N. do T.: utilizei alternativamente "óvulo" e "ovócito" como tradução para "egg". A convenção é que o gameta feminino antes da fecundação seja chamado de "ovócito (II)".]

Referências

  1. Irie, N. et alCell http://dx.doi.org/10.1016/j.cell.2014.12.013(2015).
  2. Kee, K.Angeles, V. T.Flores, M.Nguyen, H. N. & Reijo Pera, R. A. Nature 462222225 (2009).
  3. Gafni, O. et alNature 504282286 (2013).

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Acomodacionismo, o vilão oculto

Um dos problemas políticos negligenciados do Brasil se chama acomodacionismo. O Conselho Federal de Medicina acomoda a homeopatia como especialidade médica, a página do Ministério da Saúde comemora o dia da homeopatia como se fosse coisa mais eficaz que placebo, para acomodar suposta "medicina" alternativa. Por alguma razão, a prática da "urinoterapia", o ato de sorver urina na esperança de curar alguma doença, é deixada de fora das tais "alternativas", me pergunto qual é o critério.

Personalidades públicas respeitadas, na inocência da ignorância sobre o desdém da comunidade internacional de pesquisa em psicologia para com a psicanálise (freudiana, lacaniana, junguiana e demais denominações), promovem frequentemente a psicanálise e seus produtos - entre eles a "filosofia" de Slavoj Zizek e de Judith Butler, por exemplo. Afinal, por que não podemos acomodar práticas sem qualquer evidência de eficácia, ou ideias sem qualquer sinal de coerência com o resto do conhecimento ou qualquer sinal de terem passado no crivo da crítica? Ceticismo é coisa de chato. Pensamento crítico só é crítico se for acomodacionista.

Acomodemos tudo. Um deputado propôs um projeto criacionista? Vamos ouvir o que esse pessoal do "design inteligente" tem a dizer sobre isso - afinal, usam uma palavra em inglês na ideologia deles, então deve ser ciência! Uma hora, acomodando o PMDB e Kátia Abreu, teremos políticas públicas de esquerda (que supostamente seriam coisa boa para setores desfavorecidos da população, como indígenas). Uma hora, acomodando homeopatia, teremos medicina de respeito. Uma hora, acomodando charlatanismos intelectuais, teremos uma classe intelectual antenada. Continuem sonhando, Pollyannas.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Comentários sobre o Kit Crente, o manual eleitoral conspiracionista anti-gay publicado em apoio a Marina Silva


Imagem comprada em banco e alterada para o kit crente de Édino Fonseca e Pedregal


O Kit Crente é um manual de teorias da conspiração dos candidatos Édino Fonseca e Pedregal, pró Marina Silva presidente e Romário senador, impresso e distribuído aos eleitores do Rio de Janeiro.

Hospedei o Kit Crente no meu próprio site e o link se encontra no fim deste texto. É um documento que deu trabalho para quem fez: 24 páginas com qualidade gráfica de revista comercial.

CAPA

A capa já dá a tônica conspiracionista: "VEJA os planos do anticristo", com destaque à palavra "Veja", com fonte parecida com a da revista homônima. Deve caber processo por uso indevido de imagem do veículo aqui. A capa diz "A NOVA ORDEM MUNDIAL contra família e a igreja". Junto com o termo "anticristo", o termo "nova ordem mundial" é moeda de troca em grupos de teoria da conspiração há muito tempo. Ambos são citados por exemplo no livro "Parusia - A Segunda Vinda de Cristo", do Pe. Léo Persch, que tem uma edição de 1995 que eu li quando criança. O livro de Persch é um compêndio de paranoia conservadora com um mundo moderno que o padre vê com bastante ansiedade. Lembro que ele dizia que o símbolo da paz criado pelo movimento pró-desarmamento nuclear britânico (☮) era um símbolo do demônio - uma cruz quebrada de cabeça para baixo. Sinto decepcionar conspiracionistas católicos, mas o símbolo nada mais é que as letras "ND", de "nuclear disarmament", como são expressadas com bandeirinhas de sinal de tráfego, superpostas pelo designer Gerald Holtom em 1958 ( http://en.wikipedia.org/wiki/Peace_symbols ). Isso é só para mostrar que origens obscuras, geralmente de livre associação de ideias, conspiracionismos como os do material em questão têm.

PÁGINA 1 - Introdução

Aqui um tom maniqueísta já vem nas primeiras linhas. O manual diz que está lutando contra pessoas mal intencionadas, e traz uma foto de um demônio em forma de mulher, atrás de um homem segurando uma bíblia que foi modificada para dizer "código penal". Isso porque Édino Fonseca alega ter barrado um projeto que transformaria igrejas em associações (não sei qual é o problema nisso... passariam a pagar impostos finalmente?). A foto representando o diabo em forma feminina o político comprou neste banco de imagens: http://www.shutterstock.com/pic-125255954/stock-photo-priest-evicting-demons-conceptual-photo.html

É uma moda nessas eleições. A campanha da petista Gleisi Hoffmann, candidata ao governo do Paraná, também comprou fotos desse banco de imagens, e botou "eu voto Gleisi" de baixo da foto de um cara que nem é brasileiro ( http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/09/1522193-candidatos-mostram-modelos-estrangeiros-como-se-fossem-eleitores.shtml ).

O manual diz se opor a "uma sociedade corrompida e pecaminosa nesses tempos de relativismo e materialismo". Diz que há uma rebelião contra Deus. E que o agora extinto PLC122/06, que equiparava homofobia a racismo, e o Plano Nacional de Direitos Humanos 3 têm como finalidade original a "desconstrução da família original" e a "apreensão e queima de Bíblias". O que é completamente falso, sabidamente falso, e quem tem coragem de escrever isso para ganhar votos é que põe em questão quem de fato está com "más intenções".

PÁGINA 2 - Eutanásia

A seção começa alegando que Tarō Asō, um político católico japonês, convidou idosos a cometerem suicídio para deixarem de ser um peso. A declaração do político é uma declaração burra, até porque a terceira idade é bastante produtiva. O uso dessa declaração é para confundir o direito de morrer com a coação para a morte. Como o livro "Por Um Fio" do Dr. Drauzio Varella torna claro, uma morte digna é o que está em questão. Alguns religiosos como o pastor Édino podem achar que somos obrigados a sofrer até o fim dores excruciantes de algum câncer incurável, porque é o jeito "natural" e a suposta "vontade divina", mas muitos religiosos não concordam e muitas pessoas como eu não são religiosas e não querem ter a religião interferindo, infectando o poder do Estado, até mesmo o nosso leito de morte. É uma questão de direito do indivíduo poder escolher morrer antes que uma demência corroa todas as suas memórias e capacidades ou antes que dores insuportáveis torturem nosso último pedaço de vida. Escrever nosso epílogo quando podemos e como queremos é um direito que temos, e o autoritarismo de pessoas como esses políticos teocratas com nossas vidas privadas tem que acabar já. Comparar quem quer ter seu direito à eutanásia assegurado a nazistas, como faz o manual, é mais um sinal de má intenção de quem pagou e o escreveu. Existem discordâncias legítimas quanto a terceiros terminarem nossa vida para nos poupar de sofrimento (o que pode sim ser uma atitude correta), mas comparar adversários de opinião a Hitler é encerrar o debate assinando confissão de burrice. Eutanásia significa "morte verdadeira" ao pé da letra, e não, como sinonimiza o Kit Crente, "genocídio".

PÁGINAS 3, 4 E 5 - Aborto

O Kit Crente afirma que o direito de abortar é um plano do anticristo para destruir a humanidade. E diz para o leitor perguntar quem está por trás da campanha pró-aborto. Ora, ninguém está por trás: o Conselho Federal de Medicina diz que as mulheres devem ter o direito de abortar até 12ª semana de gestação ( http://genetici.st/cfm ). Eu defendo isso com argumentos, publicamente ( http://genetici.st/aborto ), e não tenho nada a esconder nem nenhum interesse oculto. Meu interesse é abolir uma lei medieval que aqui no Reino Unido não existe há muito tempo. A qualidade de vida dos britânicos e de cidadãos de outros países em que o aborto está legalizado é prova de que a paranoia conspiracionista é baseada em preconceito religioso, e não na razão. Até familiares vêm expressar desapontamento, eu cobro argumento e argumento não vem. Embriões e fetos precoces não são pessoas. Seu potencial de formar pessoas não os dá direitos de pessoa assim como meu potencial de ser médico não me dá direitos de médico de receitar remédios ou fazer cirurgias. E assim como o potencial inegável de todas as células do corpo de se tornarem pessoas não torna imoral fazer a sobrancelha ou abrir uma barriga para tirar um apêndice inflamado. Se abortar embrião é assassinato, assar um bolo de nozes, tirando das nozes o potencial de crescerem e se tornarem nogueiras, é desmatamento. Quando falta argumento, resta apelar pra emoção: o manual mostra bebês ensanguentados, um modelo vestido de nazista jogando um bebê de fase final da gestação numa lata de lixo. A aparência de um aborto legal, no entanto, não é nada disso. Quem quiser ver, e saber que não é nada chocante e nem se parece em nada com essas peças de desespero retórico dos "pró-vida", pode ver aqui: http://www.meuaborto.com.br/

No fim da seção sobre aborto, o Kit Crente traz uma tabela com supostos preços de partes de feto num suposto mercado negro mantido por clínicas de aborto. Isso vem de uma investigação de uma organização antiaborto. O curioso sobre isso é que todos os detalhes sobre o caso morreram lá pelo ano 2000. Nenhum grande veículo de mídia deu atenção, e até a página da Wikipédia sobre a organização responsável, Life Dynamics, não cita o suposto mercado. Além disso, o comércio de tecidos fetais é proibido por lei nos EUA. Por que cavar uma polêmica midiática vazia de grandes provas nos anos 1990? A resposta é a mesma: apelo à emoção na ausência de argumentos que apelem à razão.

PÁGINAS 6-10 - Prostituição e Homossexualidade

O Kit Crente tenta demonizar os direitos das prostitutas que elas mesmas buscam desde o trabalho da falecida Gabriela Leite. Mais tentativa de ingerência religiosa usando o poder público sobre a vida de quem não quer seguir seus preceitos moralistas irracionais. Igrejas podem espernear, mas o corpo do cidadão pertence a ele próprio e com ele ele faz o que quiser, inclusive oferecer serviços sexuais por dinheiro. Prostituição já é legal, o que infelizmente é ilegal é que profissionais do sexo se organizem, por isso existe o projeto de lei com o nome da Gabriela proposto pelo Jean Wyllys. Em qualquer país que respeite as liberdades individuais e não seja refém de bancadas teocráticas e autoritárias, o projeto passaria.

Depois, o kit parte para conspiracionismos contra direitos LGBT e a velha alegação de que equiparar homofobia a racismo como crime é atentar contra liberdade de expressão. Tenho certeza que muita gente falava isso sobre a lei anti-racismo nos anos 1980. A alegação de que homofobia não é comparável a racismo também carece de argumento. Pessoas como o Malafaia alegam que, diferente de fenótipos de negritude, comportamentos afetivos e sexuais não têm nada com genética e podem ser mudados. Disso eu já cuidei no meu vídeo-resposta, e até hoje não apareceu geneticista que refutasse. Além disso, certas pessoas homossexuais têm trejeitos marcados e não podem esconder (nem devem!) sua homossexualidade assim como pessoas negras não podem esconder (nem devem!) que são negras. A revista depois perde tempo com detalhes e relatos de pessoas que supostamente se tornaram gays por verem outras sendo gays, inclusive o Clodovil. Chama isso de "estatística". Não é: chamamos isso de evidência anedótica, e não tem valor algum para provar essa alegação. Talvez quem alega que ser gay é determinado socialmente seja mal resolvido e tenha um medo danado de dar vazão a certas vontades que tem quando passar a conviver com pessoas gays como cidadãos iguais?

Depois, o manual tenta uma manobra de distorção: diz que pessoas do mesmo sexo formando famílias "afetivas" (as famílias tradicionais então não são afetivas?) estão sob uma patologia. Só que nenhum órgão médico científico considera homossexualidade uma doença.

O Kit Crente cita um tal de Genival Veloso de França, que supostamente diz num livro de medicina legal editado pela Guanabara Koogan que a homossexualidade e a transexualidade são doenças. Bem, a OMS diz o contrário. E o Dr. Robert Spitzer, que fez os últimos estudos propondo cura gay em periódicos científicos, mudou totalmente de ideia e não faz isso mais ( http://www.bulevoador.com.br/2012/05/famoso-psiquiatra-pede-desculpas-por-estudo-sobre-cura-para-gays/ ).

O manual, alegando que homossexualidade é patologia, alega que casais gays não devem ter direito de adotar crianças. Isso é facilmente respondido com estudos como o da Universidade de Cambridge mostrando que crianças com dois pais ou duas mães se dão muito bem ( http://www.cam.ac.uk/research/news/ive-got-two-dads-and-they-adopted-me ).

O principal responsável pelo Kit Crente é o pastor Édino Fonseca, aparentemente. Na Wikipédia está dito que, como deputado estadual pelo Rio de Janeiro, o pastor tentou passar um projeto de cura gay. Daí se entende por que ele omite que homossexualidade já não é mais considerada doença por qualquer organização de psicologia ou psiquiatria, e que a transexualidade não é mais considerada doença no DSM-V, e provavelmente deixará de sê-lo no Código Internacional de Doenças. É engraçado que o Kit Crente cite o transtorno chamado Orientação Sexual Egodistônica. Essa egodistonia é justamente o desconforto por que passam pessoas que não se aceitam como são e tentam essas curas gays oferecidas por organizações evangélicas na surdina pelo país. Se achou que isso iria provar que ser gay é doença, o deputado estava muito enganado. E ele não perde por esperar: chegará o dia em que transexualidade deixará completamente de sê-lo também, pois não há argumento ético ou técnico-científico que justifique tratar a identidade de alguém como uma doença. Posso apostar nisso e vou ganhar.

_____

Comentei aqui metade do Kit Crente. O que mais impressiona é o nível de detalhe dos conspiracionismos, o trabalho que deu selecionar enviesadamente cada mínimo pedaço de informação para promover conservadorismo irracional e preconceito. Outras partes que não comentei envolvem alegações sobre o MST e sobre os planos de descriminalizar drogas.

O Kit Crente pode ser baixado aqui: http://genetici.st/kitcrente

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