sexta-feira, 31 de julho de 2015

"Apropriação cultural" é embuste intelectual

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Torneio Turbantão de Ouro de Apropriação Cultural, na página Aventuras na Justiça Social.



Muito tem sido dito sobre "apropriação cultural", num sentido específico: de que seria imoral para uma pessoa de certo fenótipo usar elementos de vestuário, música etc. usados como "símbolos de luta" de pessoas de outro fenótipo contra o qual há preconceito e discriminação.

Um exemplo é gente reclamando na internet de pessoas "brancas" que usam dreadlocks ou turbantes. Várias vezes vi turbas de pessoas atacando o perfil de alguém nas redes sociais por isso. Alegam que não querem censurar nem proibir, mas é isso o que ocorre de fato: cria-se o tabu e faz-se policiamento por reprovação pública em grupo. Essa reprovação pública em grupo dá a falsa impressão de que a maioria ou todas as pessoas pertencentes ao tal grupo ("negros", no caso) concordam com o tabu. Portanto, o resultado que querem é de fato a censura.


Há ao menos duas premissas falsas no conceito de "apropriação cultural" como é usado por gente que alega estar preocupada com justiça social:

- Que existe pureza cultural, de tal forma que duas culturas em contato que trocam informações poderiam ter claramente total crédito por um ou outro pedaço dessa informação. Isso se parece com tratar culturas como se fossem indivíduos em disputa por copyright. O rock veio do blues e do jazz, estilos originalmente negros, mas também veio do country e do folk, estilos associados a brancos "redneck". Essa diversidade de origens é uma coisa boa, não uma coisa ruim. E as origens são mais obscuras do que normalmente se pensa, por causa da inexistência de pureza cultural. (Somente povos isolados da Amazônia poderiam alegar pureza cultural.)

Uma curiosidade sobre essa premissa falsa é que, enquanto na primeira metade do século XX muita gente autoritária no ocidente estava muito preocupada com pureza racial, como isso é (corretamente) rechaçado hoje em dia, parece que o autoritarismo identitário está recorrendo à ideia de pureza cultural.

- Outra premissa falsa é que pessoas de cores diferentes são necessariamente de culturas diferentes. Pode até fazer algum sentido para um país com história de segregação forçada como os EUA, em que pessoas negras têm até o próprio sotaque. Mas é claramente falso para o Brasil, em que até religiões de matriz afro têm uma proporção razoável de não-negros.

Nos meios virtuais em que o termo pejorativo "apropriação cultural" está em voga, muito se fala em negros e brancos, mas pouco se fala em pardos, e quando se fala, há gente inclusive contrária à reprodução entre negros e brancos, o que é de pasmar. Também é especialmente assustador em um país com tantos indígenas e com tanta miscigenação. Notar o fato de que há muita miscigenação também é apontado como racismo, por algum motivo. Já testei meu próprio DNA, e há nele marcadores das três grandes origens do Brasil: indígena, negra e europeia. Miscigenação se aplica à maior parte do território brasileiro, o que torna mais louca ainda essa ideia autoritária de tentar controlar quem pode usar turbante com base na cor da pele.

Não tem como salvar esse conceito de "apropriação cultural". É um embuste usado para reforçar autoritarismo identitário, fazer reserva de mercado intelectual para pessoas com base em suas características intrínsecas em vez de suas habilidades argumentativas e conhecimentos. É antiintelectual, é autoritário, é um enlatado importado dos EUA, e é lixo.

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P.S.: No caso do turbante, acho perda de tempo tentar descobrir que povo começou a usar primeiro, até porque a resposta a isso provavelmente é que foi inventado várias vezes. É basicamente um tecido enrolado sobre a cabeça, não é preciso ser gênio para inventar isso, eu ficaria surpreso é se tivesse sido inventado uma única vez.

domingo, 26 de julho de 2015

Em defesa da indecidibilidade

Nós ainda não sabemos o que é a consciência, do que ela é feita, como ela é gerada, como ela funciona. Há quem defenda que jamais saberemos. Isso não significa que devemos desistir de debater a respeito nem impede que saibamos que algumas respostas são mais erradas que outras. Ter vontade de encontrar a verdade não implica que você já a tem, nem tira da sua frente os obstáculos a serem transpostos para obtê-la. E alguns obstáculos devem ser, sim, intransponíveis, e te deixam com duas ou mais respostas entre as quais, em vista do obstáculo, é impossível decidir.

Isso tudo é muito fácil de aceitar. Mas em assuntos mais mundanos, que têm a ver com ética, parece que nós temos uma forte tentação a não reconhecer a indecidibilidade. Exemplos:

- Woody Allen é um monstro abusador de crianças, ou Mia Farrow influenciou sua filha supostamente abusada (Dylan Farrow) a denunciá-lo para se vingar dele por tê-la trocado por... outra filha (Soon Yi), adotiva, na idade de consentir? Muita gente, especialmente por compromissos ideológicos, quer fingir saber a verdade. Alguns antifeministas querem fingir que sabem a verdade para poder dizer "estão vendo? Mais uma acusação falsa nesta perseguição cultural feminista contra homens!", enquanto algumas feministas querem dizer "estão vendo? Mais um predador machista, devemos acreditar nas vítimas, ouvir e acreditar". Pois estão ambos os campos errados: não devemos concluir que algo é verdade só porque confirma nossas narrativas ideológicas do que ocorre na sociedade. Ter razão neste caso significa ter acesso a evidências fortes, e não escolher o que é "verdade" porque afaga nossos pressupostos. O caso é indecidível. Allen ser inocentado pelo sistema judicial por falta de provas não é a mesma coisa que ele ser de fato inocente, e ser acusado por gente que se encaixa em perfis de vítima não quer dizer que é de fato culpado. Quem gosta e quem desgosta de Woody Allen terá de viver com a dúvida, se tem honestidade intelectual. Neste caso, certeza é para quem é intelectualmente desonesto e ideologicamente motivado. Até, é claro, que surjam evidências conclusivas, o que se torna cada vez menos provável com a passagem do tempo.

- Há algum tempo, uma decisão judicial obrigou uma mulher a fazer uma cesariana, pois a opinião médica era que se ela não fizesse a cesariana o bebê morreria e talvez ela também. A mulher se opunha fortemente a ser submetida a isso, mas foi submetida pela autoridade do Estado com a justificativa de proteger o direito à vida do pequeno cidadão que ela trazia dentro de si. Diferentes intuições entram em conflito, aqui: autonomia individual deve ser preservada, mas também deve ser preservado o direito à vida de bebês já sencientes, como é o caso na fase final da gestação. Radicais libertários olharão o caso e já concluirão: "mais uma vez o Estado abusando de poder e interferindo na autonomia individual". Radicais leitores de Foucault concordarão por motivos ligeiramente diferentes: "mais uma vez o biopoder esmagando a dignidade individual em função de uma narrativa médica que é supostamente verdadeira". Já quem tem muita fé na autoridade médica dirá "lá vem os apologistas da ignorância tentando atropelar a expertise médica e botar vidas em risco". Sabem o que eu acho? Que era indecidível. Que a opinião médica podia estar errada, mas tinha que tomar uma decisão que aumentasse a probabilidade de sobrevivência de gestante e bebê. Que a mulher estava certa em rejeitar que uma autoridade interfira no seu direito de fazer com seu corpo o que bem entende, que ela poderia estar certa em ver riscos em ser submetida a uma interferência invasiva, que ela talvez soubesse do que estava falando quando duvidou da opinião médica. Dependendo, é claro, dos motivos objetivos para dar razão à opinião médica ou à gestante, talvez fosse decidível. Mas na ausência desses detalhes, é indecidível. 

Temos que perder o medo de expressar dúvida nos casos indecidíveis em que a dúvida é a posição mais sensata que se pode ter. Claro que às vezes, quando somos nós os envolvidos, temos que tomar uma decisão rápida e somos forçados a decidir. Mas devemos deixar claro que havia dúvida quando decidimos. Se acertamos, não vai ser muito relevante que estávamos em dúvida, mas admitir que havia tem o efeito humilde de aceitar que o acerto não foi um completo mérito. Se errarmos, a admissão da dúvida aliviará ao menos em parte a nossa culpa, pois pode ser que, diante das informações disponíveis e da limitação de tempo, tenhamos feito o melhor que podíamos, e se erramos não foi por má fé nem ignorância, mas por termos sido forçados a decidir no que era indecidível.

sábado, 25 de julho de 2015

In Dubio Pro Hell: dois erros do ativismo LGBT

Ocasiões em que o movimento LGBT errou no Brasil, na minha opinião:

- Quando a maioria concordou que Levy Fidélix incitou a violência. Eu tive discussões épicas sobre isso com gente que respeito muito, mas que continuo acreditando que está errada. O que Fidélix disse naquele debate de candidatos à presidência foi homofobia, foi ódio, foi tudo de feio, mas não foi incitação à violência. Eu vi de tudo para forçar a barra nesse sentido, o que eu achei mais alarmante foi uma tentativa de alargar o conceito de "violência" do senso comum para algo que inclua palavras desagradáveis. Sabe como isso parece para um observador não envolvido? Que o movimento LGBT, quando é conveniente, muda o sentido das palavras, com o propósito de, na ausência de lei criminalizando discurso homofóbico, punir discurso homofóbico pintando-o como outra coisa: incitação à violência. Contei este caso para a filósofa Susan Haack, que recentemente publicou um livro em filosofia do direito ("Evidence Matters"). Ela concordou: o que é contemplado pela lei é violência física, é incitação a socos, linchamentos, pontapés, e num país em que linchamentos ainda são um problema é muito importante que a lei coíba isso. Esticar o conceito de "violência" para incluir palavras preconceituosas é uma estratégia ruim.

- O exemplo a seguir eu jamais dei em público. Eu guardei pra mim. O que eu tenho feito ultimamente, no entanto, é não guardar mais pra mim, pois isso é autocensura. Eu não posso aplicar um princípio ético para meus adversários e outro para meus confrades e comadres, o nome disso é sim hipocrisia. Vamos ao caso então:

Há uns dois anos atrás Silas Malafaia (meu queridinho) reagiu ao uso de fotos de modelos posando de forma similar a santos católicos na parada LGBT dizendo que era para os católicos "caírem de pau em cima deles [ativistas LGBT]". No contexto está óbvio: o "cair de pau" era força de expressão. O próprio Malafaia se defendeu assim: disse que ele é um carioca que usa muitas gírias (meu caso favorito é quando ele disse que iria "funicar" o presidente da ABGLT, o que soa perigosamente próximo de "fornicar"), que não estava dizendo para ninguém literalmente bater em ninguém. Não era "ato falho", era metáfora, força de expressão. E qualquer generosidade interpretativa vai corroborar isso. Mais uma vez, uma boa parte dos ativistas (não sei se foi maioria, pois não vi resistência a essa interpretação) alegou que Malafaia estava incitando a violência e deveria ser punido.

Generosidade interpretativa é outra coisa que não devemos aplicar apenas a nossos confrades e comadres. Uma coisa que eu vejo muito entre ativistas é que, em vez de analisar o caso, fazer um "menu mental" de interpretações e considerar quais delas são mais plausíveis, a estratégia é a seguinte: escolhe-se a pior interpretação possível, descarta-se irracionalmente e dogmaticamente qualquer interpretação alternativa, e parte-se para briga com qualquer pessoa que discordar. Eu já fui alvo disso: uma vez postei uma piadinha para divertir amigas lésbicas em que duas mulheres quase se beijavam e a legenda dizia "nessa ceia não vai ter peru". Uma piadinha de natal. (E sim minhas amigas gostaram.) Imediatamente uma amiga trans caiu em cima, e mais ativistas trans foram se juntando a ela para insistir que a única interpretação possível da piada é que o propósito dela era afirmar que mulheres nascidas com pênis não são mulheres, e que portanto eu era transfóbico por publicá-la. Como eu disse: escolhe-se a pior interpretação possível, e parte-se para a briga contra qualquer outra interpretação, especialmente as mais plausíveis. Eu chamo essa estratégia de "in dubio pro hell".

Eu também já fiz isso. Uma vez, eu interpretei uma notícia como sexista contra Dilma Rousseff. Amigos e amigas apareceram para criticar a minha interpretação. Eu li as críticas e as aceitei, e reconheci que eu estava saltando à pior interpretação possível sem estar justificado. Eu li e refleti sobre as críticas sem considerar primeiro qual era o gênero, a orientação sexual, a cor etc. de quem estava me criticando, mas considerando apenas se o que estavam dizendo era bom argumento, se era plausível, se era verdadeiro. Coisa que está infelizmente cada vez mais fora de moda. Se não fossem essas pessoas, e se não fosse eu ter alguma (mesmo que às vezes pouca) abertura para críticas, hoje talvez eu seria um ativista "justiceiro social" dão doido quanto os que eu costumo criticar.

Assuntos

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