segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Atleta aprende genética sozinha e chega a resultado original para entender suas doenças

Do Twitter de Kim, @digitalpatient_
História real - Kim Goodsell, uma atlética mulher de meia idade da Califórnia, aprendeu genética sozinha para responder à sua suspeita de que suas duas doenças raras, que prejudicam sua performance atlética, tinham uma raiz genética em comum. Kim se familiarizou com o jargão da biologia molecular, aprendeu sobre as moléculas ligadas a seus fenótipos, e gerou uma previsão informada que foi mais tarde confirmada: ela tem uma substituição de nucleotídeo num gene importante para o esqueleto celular, o LMNA (detalhes sobre o gene: http://genetici.st/lmna ).

As doenças de base genética de Kim são a síndrome de Charcot-Marie-Tooth, em que os neurônios que levam sinais da medula às extremidades vão degenerando e formando ramos para compensar por um tempo limitado; e a cardiopatia ventricular direita arritmogênica, em que os músculos do ventrículo direito do coração vão sendo substituídos por gordura e tecido cicatrizado, perdendo o ritmo dos batimentos. A cardiopatia foi a primeira a ser diagnosticada, e a solução foi implantar um desfibrilador interno. Quando veio o diagnóstico da Charcot-Marie-Tooth, Kim começou a suspeitar da improbabilidade de as duas serem completamente independentes e pôs-se a passar centenas de horas em agregadores de artigos científicos como o PubMed.

Infelizmente, a pesquisa dela não é suficiente para uma cura. Kim só pode tomar providências genéricas e paliativas como melhorar a dieta, mas vai ver as duas doenças evoluindo lenta e inexoravelmente. O que mais gosto na história é a explicação dela para o porquê desse esforço todo:

"Eu queria saber", disse ela. "Mesmo tendo um terrível prognóstico, o ato de saber aplaca a ansiedade. Há um senso de empoderamento." Sapere aude!

História completa: http://www.bbc.com/future/story/20140819-the-amateur-who-surprised-science

sábado, 23 de agosto de 2014

Sobre quem "discorda" de orientação sexual

Qualidade é variável em muita coisa: de pastel de beira de estrada ("quando mais sórdido melhor", segundo o LF Verissimo) a ideias. Tem gente que é mais exigente com a qualidade do pastel que come do que com a qualidade de suas ideias.

Entre muitas ideias populares mais difíceis de tragar que aquele de palmito da rodoviária, está a ideia de que "discordar de orientação sexual" é um direito ou ao menos algo que faz algum sentido.

Pois não faz. Não faz sentido algum. E mostro por quê. Comecemos com a parte do "discordar": concordância ou discordância se expressa em relação a crenças, posições, opiniões, conclusões. A orientação sexual de uma pessoa não se encaixa em nada disso. Bentinho sente tesão em Capitu não é porque na opinião dele a Capitu é gostosa. Isso é inverter a ordem das coisas: porque se sente atraído pela Capitu é que Bentinho tem a opinião de que ela é gostosa. Você pode discordar do Bentinho quanto a ela ser gostosa, pois é uma opinião dele. Mas não faria sentido algum você "discordar" do Bentinho se sentir atraído pela Capitu - é uma coisa que acontece dentro do Bentinho, que ele sente quando olha para a Capitu, não que ele conclui depois de fazer uma lista de atributos da Capitu. Os atributos são levados em consideração, mas inconscientemente, pelos critérios que só um cérebro heterossexual como o do Bentinho, e talvez apenas o cérebro dele, faria.

"Discordar" da atração de Bentinho por Capitu é como "discordar" da expansão de volume da água no congelamento. Você pode até ser um sujeito que tem interesse em evitar que o Bentinho faça qualquer coisa em função de sua atração pela Capitu, mas se disser que "discorda da orientação sexual" dele, ou você não sabe o que é "discordar", ou não sabe o que é "orientação sexual".

Mas eu não acho que as pessoas que usam esse oxímoro realmente têm o órgão da análise quebrado. Tenho minha própria hipótese sobre isso: é que é feio, hoje em dia, falar "malditos viados e sapatas, não quero que vocês existam". Não, você quer ser intolerante e preconceituoso, mas não quer *parecer* ignorante e preconceituoso. Então escolhe um eufemismo: "discordar". Você não "odeia", não "tem nojo", não, esses seriam motivos irracionais demais para apresentar para tentar excluir uns 10% das pessoas do convívio social, do acesso às mesmas coisas que as outras pessoas têm. Afinal de contas, se nojinho fosse motivo suficiente para justificar alguma coisa, o nojo das crianças do gosto do xarope seria suficiente para não tomarem o remédio. Você quer parecer ser uma pessoa interessada em debater, de mente aberta, uma pessoa que analisa as coisas antes de concordar, ou melhor, *parece* analisar. Por isso, você não é homofóbico: você "discorda" da orientação sexual de Fulana ou Cicrano.

E eu "discordo" de palmito.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Entre politicamente corretos e incorretos: ética do humor

“Assim como piadas que ativam estereótipos não parecem ser sempre uma expressão de defeito naqueles que apreciam essas piadas, piadas sobre a feiúra ou a deficiência, ou sobre violência, estupro ou morte, não parecem vir sempre da insensibilidade ou crueldade na pessoa que conta ou que aprecia tais piadas. Tais vícios podem explicar por que algumas pessoas gostam de piadas desse tipo, mas para outras a apreciação de tais piadas é explicada de outras formas. Para algumas pessoas vem de traços de caráter opostos. É precisamente por causa de suas senbilidades e ansiedades sobre os sofrimentos e infortúnios que buscam alívio na jovialidade a respeito desses assuntos sérios. Pense, por exemplo, no velho que diz “quando acordo de manhã, a primeira coisa que eu faço é esticar os braços. Se não bater em madeira, eu levanto”. Tal gracejo não indica que o velho considera sua morte um assunto trivial. Em vez disso, é sua ansiedade sobre a morte (e enterro) que dá origem a seu humor. Enquanto este é um caso de humor autodirecionado, não há razão para pensar que algo similar não ocorra às vezes quando as pessoas brincam sobre as tragédias que acometem outros. Tais tragédias podem nos causar ansiedade, e o humor é uma forma de lidarmos com elas.

(…) Muitas pessoas reconhecem que o contexto é crucial para determinar quando uma piada expressa um defeito no contador da piada, mas uma opinião comum sobre a ética do humor tende a simplificar demais as considerações de contexto. Por exemplo, frequentemente se pensa que piadas sobre “negros”, judeus, mulheres, poloneses ou deficientes, por exemplo, são moralmente contaminadas ao menos que sejam contadas por membros do grupo alvo da piada. Alguns vão ao ponto de dizer que ao menos que quem conta a piada seja membro do grupo alvo, contar a piada é errado. Essa opinião é correta no sentido de afirmar que a identidade de quem conta a piada é relevante para uma avaliação moral de um dado ato de contar piada. Dependendo de quem conta uma piada, a piada é ou não é uma expressão de defeito de quem a conta. Entretanto, onde a opinião erra é ao alegar que apenas membros do grupo podem contar a piada sem (a) a piada ser uma expressão de uma atitude defeituosa ou (b) a piada ser vista como uma expressão de tal atitude.

No entanto, nenhuma dessas suposições se sustenta. Primeiro, é possível que membros do grupo compartilhem de atitudes defeituosas sobre o grupo. Não é incomum que pessoas internalizem preconceitos ou outras atitudes negativas para com o grupo do qual são membros. Quando tais membros de um grupo contam piadas sobre seu grupo, bem podem estar exibindo as mesmas atitudes que pessoas preconceituosas fora do grupo. Se uma piada é moralmente problemática porque expressa algum defeito em quem a conta, então o contar de uma piada sobre “negros”, por exemplo, é errado se a pessoa que a conta for “negra” e compartilhar desse defeito.

Em segundo lugar, por causa desse fenômeno nós não podemos assumir que membros de um grupo não serão vistos (ao menos por aqueles com uma opinião mais nuançada sobre a psicologia humana) como expressando as atitudes problemáticas.

Em terceiro lugar, há situações nas quais podemos ter confiança que quem conta a piada não compartilha das atitudes negativas mesmo que ele ou ela não seja um membro do grupo sobre o qual a piada está sendo contada. Às vezes conhecemos alguém suficientemente – ou sabemos que aqueles para quem contamos uma piada nos conhecem o suficiente – de modo que o contar da piada não será visto como uma expressão de uma atitude maliciosa.

Assim, enquanto a identidade da pessoa que está oferecendo um pouco de humor é claramente uma consideração relevante de contexto, esta não deve ser reduzida ao princípio bruto de que todos os membros ou apenas membros de um grupo podem contar piadas sobre ele.”

___ 

Excertos de Benatar, D. Levando (ética do) humor a sério, mas não a sério demais. Journal of Practical Ethics. Oxford, 2014. Tradução livre. Disponível em inglês em: http://genetici.st/humourethics

Veja também algumas referências em pesquisa empírica com humor depreciativo em http://lihs.org.br/humordepreciativo

Assuntos

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