Sábado, 27 de Junho de 2009

História do ateísmo – parte 1: Índia

Esta é a primeira parte de uma série de textos curtos para a divulgação da história do ateísmo, escritos especialmente para publicação no site da União Nacional dos Ateus (UNA), que será lançado em breve. Os números entre colchetes às vezes trazem complementação em notas no final do texto.

 


Esboço de uma história do ateísmo

por Eli Vieira*

Introdução - pensando ateisticamente a História e pensando historicamente o Ateísmo


Que é a história, para um ateu moderno, além de uma coleção de memórias mortas para quem primeiro as formou, e vivas para o patrimônio cultural que herdamos?

Existem diferentes linhas modernas de pensamento ateu sobre a história. Por seu saliente interesse muitos marxistas devem ser citados, mas eles são apenas parte de uma comunidade bem mais diversa.

Se na época de Homero aceitava-se a interferência divina sobre os fatos históricos, hoje historiadores como Bart Ehrman, além de não aceitarem interferências sobrenaturais na descrição dessa memória, não aceitam também doutrinas derivadas do teísmo, como a ideia de um povo escolhido.[1] A Historiografia moderna é notavelmente secular, e isso é conquista do pensamento racional e cético.

Karl Popper, grande filósofo da ciência, também investigou filosoficamente certas concepções de história e delegou toda uma categoria do que chamava de historicismo à chamada forma teísta, e um dos historicismos da forma teísta é a doutrina do povo escolhido. O historicismo é uma forma pobre de descrever e pensar a história, para Popper. Embora ele ressalte que seu ataque ao historicismo de forma teísta não é um ataque à religião, e lembre que existem pensadores cristãos não historicistas [2], para se detectar este historicismo basta entrevistar um teísta médio para se confirmar alguma crença na inevitabilidade do curso da história, ou seu planejamento prévio na mente divina.

É uma vantagem para quem não acredita num deus como o da Bíblia que a narrativa de Edward Gibbon sobre o Império Romano, por exemplo, não se assemelhe em nada às narrativas bíblicas sobre um mundo sob a constante vigília e interferência de uma entidade divina. A era da informação, ao crescer dos papiros aos sítios eletrônicos, revelou um deus silencioso.

Ehrman, ao descrever como a Bíblia foi editada através das eras [3], e Gibbon, ao descrever a queda de um grande império [4], são uma pequena amostra de um espírito secular que precisa ser adotado para uma mínima correção na descrição dos fatos históricos. Não há espaço para afirmar milagres e mágicas na História (basta pesquisar o que se diz atualmente sobre um "Jesus histórico").

Um ateu, portanto, não sofrerá prejuízo algum ignorando a existência dos deuses nos fatos históricos. É justamente isso o que fazem os historiadores acadêmicos, ateus ou não.

Que podemos dizer, então, sobre a história do ateísmo?

Esta posição sobre a existência de um deus ou deuses não tem uma espinha dorsal histórica definida. Ou seja, não há para os ateus nenhum livro sagrado, não há uma única fonte para suas conclusões.
Enquanto as crenças teístas dependem de um epicentro histórico para sua disseminação, o que decorre diretamente de sua incapacidade em definir qual deus é melhor ou mais plausível, ateísmos brotaram independentemente em várias mentes, alguns frutificando em escolas de pensamento, a maioria provavelmente morrendo com seus semeadores solitários.

Entretanto, existem historicismos ateus, sendo um deles o marxismo, e existem ateus afirmando coisas sobre a história que deixariam Edward Gibbon de cabelo em pé.

Espero fornecer neste artigo um panorama geral que permita inferir a largura geográfica e a profundidade cronológica do ateísmo, embora não seja meu objetivo um estudo extenso - e sim uma chamada para estudos extensos. Nas conclusões tentarei uma síntese retomando o historicismo e a correção histórica.

 

Ateísmo no oriente – Índia

 

Grande parte da Índia forma um corredor de migração entre continentes, uma passagem onde a presença humana pode ser traçada a dezenas de milhares de anos, como atesta a diversidade de etnias, cores e línguas daquele país. Estimativas mais ousadas de relógio molecular traçam a presença humana na região da Índia a até 60 mil anos.[5] Essas e outras condições permitiram à Índia milênios de tradição cultural, tanto em religião quanto em artes, medicina e filosofia.

É errôneo pensar que a Índia é um lugar mais supersticioso que o resto do mundo, quando sua tradição filosófica envolta pelo Hinduísmo compreende até mesmo escolas filosóficas completamente ateias e materialistas.

Amartya Sen, indiano prêmio Nobel de economia em 1998, comenta esse senso comum sobre seu país:

De algumas formas as pessoas se acostumaram com a ideia de que a Índia seria espiritual e religiosamente orientada. Isso deu uma colher de chá para a interpretação religiosa da Índia, apesar do fato de que o Sânscrito teve uma literatura ateísta maior que em qualquer outra língua clássica. Mesmo dentro da tradição hindu houve muitas pessoas que eram ateias. Madhava Acharya, o notável filósofo do século XIV, escreveu um livro grandioso chamado Sarvadarshansamgraha, que discutia todas as escolas religiosas de pensamento dentro da estrutura hindu. O primeiro capítulo é "Ateísmo" - uma apresentação muito forte a favor do ateísmo e do materialismo. [6]

A afirmação recorrente de que crer em deus(es) é a condição natural do ser humano cai por terra à luz de uma mínima análise do milenar pensamento indiano. O ateísmo se manifesta aqui tanto na forma de sistemas "metafísicos" quanto na forma do materialismo radical.

Ateísmos metafísicos e religiosos existiram tanto em parte da ortodoxia (Āstika) quanto na heterodoxia (Nāstika) da filosofia classificada dessa forma pelos hindus.

As escolas ortodoxas de Samkhya e Mimamsa, apesar de falarem em forças "espirituais" paralelas à natureza e usarem o "invisível", não viam lugar para um Ishvara (Deus, Ser Supremo) em seus sistemas.

Já as três principais escolas heterodoxas também são todas ateias. O termo Nāstika, que as agrupa, deriva do sânscrito na (não) + āstika (crente, pio, especificamente crente nos Vedas, textos sagrados hindus). Estas escolas são nada menos que Budismo e Jainismo, e também o menos conhecido Cārvāka, completamente materialista.[7]

Talvez mais importante que a ausência de crença em deuses no Budismo seja a exortação do Buda a favor do ceticismo, que explicitamente ia na contramão das correntes Āstika por não ver virtude na pregação das escrituras ou na autoridade da tradição.[8]

No tempo em que Buda e Mahavira elaboravam as doutrinas do budismo e do jainismo, entre os séculos VI e V antes da Era Comum (AEC, ou a.C.), outros professores ensinavam outras doutrinas ateias na região da Índia, alguns deles materialistas. Embora alguma influência materialista possa ser apontada no Budismo e no Jainismo, há nesses sistemas uma forte defesa da continuidade da vida após a morte e outros conceitos não-materialistas. O Jainismo mais marcadamente defende um dualismo entre espírito e matéria, e prega o ascetismo e a penitência.[9]

Um contemporâneo do Buda, chamado Ajita Kesakambala, pregava um sistema niilista e materialista segundo o qual o homem era nada mais que a reunião de quatro elementos (terra, água, fogo e ar), que após a morte voltavam para suas respectivas "massas". Para Kesakambala, "não há fruto ou amadurecimento de ações boas ou más. Não há este ou aquele mundo. Não há mãe nem pai. Não há seres que nasçam repentinamente [deuses, céu, inferno, podem ser citados como estes seres]. (...) Tolos e sábios são destruídos e desaparecem quando o corpo se despedaça. Eles não existem mais após a morte."[9]

No século IV AEC, o materialismo também se manifestou na forma de uma aparente justificativa para a remoção de escrúpulos morais que refreassem as políticas maquiavélicas do rei Chandragupta do Império Maurya. Esta teoria política similar à de Maquiavel foi elaborada pelo conselheiro e primeiro-ministro Chanakya. Também um certo Purana Kasyapa endossava esta moral materialista segundo a qual "qualquer um pode fazer ou permitir que qualquer coisa seja feita, mutilar ou deixar que alguém mutile (...) mas ele, em tudo isso, não faz nada de mau".[9]

Certamente assim apresentada a doutrina materialista era algo a ser rechaçado pelos budistas e jainistas, e isto é ilustrado enfaticamente numa história sobre um outro rei, Paesi de Seyaviyā, que não acreditava "em nenhum Deus e nem no além" e fazia experimentos com punições de criminosos para confirmar sua descrença em vida após a morte. "Estou convencido de que a alma e o corpo são o mesmo", dizia o rei, enquanto argumentava que se houvesse vida após a morte seu avô, também um rei ateu, teria voltado para avisá-lo sobre os malefícios de sua descrença. No texto, que faz parte tanto dos clássicos jainistas quanto dos budistas, este rei malvado é convertido pelos argumentos ad hoc de um monge jainista chamado Kesi.[9]

Paesi chegou a mandar despedaçar o corpo de um homem para procurar pela alma, e em dois experimentos trancou homens em jarros vedados para demonstrar que morriam mesmo que não houvesse algum buraco pelo qual a alma pudesse sair, ou pelo qual as almas dos vermes pudessem entrar para consumir o corpo. Antecipando em dois milênios os experimentos dos 21 gramas de Duncan Macdougall (1907), Paesi pesou o corpo de um homem antes e depois da morte, concluindo, diferente de Macdougall, que não havia diferença no peso antes e depois da morte e que portanto a alma e o corpo eram a mesma coisa. [9, 10]

O materialismo rústico desses reis, amparados por seus conselheiros, não pode ser considerado, entretanto, parte de uma escola de pensamento definida.

A doutrina materialista se torna mais elaborada em obras como a de Kakuda Katyayana, que pode ser considerado um dos primeiros indianos a elaborar uma filosofia natural materialista sistemática, no sentido de ter compromisso com explicação e não puramente justificação política.  Para ele o homem era composto de sete "massas" (kāyāh): terra, água, fogo, ar, prazer, dor e as "almas" (jivah). Esses fatores permanentes não foram criados nem gerados, eram imutáveis para Katyayana. "Quando alguém decepa uma cabeça com uma espada afiada", dizia ele, "ninguém rouba a vida de ninguém. A espada passa, pelo contrário, através de espaço vazio, entre as sete massas."[9]

Entretanto, nenhum materialista da Índia se compara, em termos de sistematização filosófica, à escola de Cārvāka, também conhecida como Lokāyata. O nome Cārvāka provavelmente advém do fundador da escola, sobre o qual quase nada se sabe, que teria vivido talvez no século VI AEC. O modo como os dois nomes se tornaram sinônimos é pouco claro, mas o termo Lokāyata é encontrado na literatura hindu como sinônimo de debate racional, de ceticismo em geral, e de "filosofia do povo" ou "filosofia do mundo". [11, 12]
O nome Cārvāka é dado a um vilão do famoso épico Mahabharata, e isso decorre diretamente do mal estar que esta escola filosófica causou na Índia antiga.[11]

Como nas outras escolas filosóficas, os ensinamentos dos cārvākas era passado adiante através de aforismos, primeiro oralmente e mais tarde em textos. Alguns desses aforismos sobrevivem até hoje:

"Agora explicaremos a verdade." [Este aforismo se repete em outras escolas.]
"Terra, água, fogo, ar: essas são as entidades."
"Designa-se sua conexão ou combinação como o corpo, os órgãos dos sentidos e os objetos."
"Delas se desenvolve a mente ou o espírito em si."
"O conhecimento emerge como uma força do inebriante fermentado da levedura."
"As manifestações da vida (jivah) se assemelham a bolhas na água."
"E porque não há nada que continue no mundo do além, não há, portanto, nenhum mundo do além."[9]

Além de recomendar que o conhecimento seja adquirido pelos sentidos e por inferências minimalistas a partir dos sentidos, e afirmar a auto-suficiência da natureza e a emergência da mente a partir de processos naturais, os cārvākas recomendavam uma ética baseada em máximo prazer e mínima dor, que não seria um hedonismo irresponsável, mas uma temperança e moderação menos destacada dos sentidos que o caminho do meio dos budistas.

Os cārvākas negavam os deuses do Hinduísmo, os mundos transcendentes de punição ou recompensa e também a sobrevivência à morte do corpo, além de rejeitarem também o ascetismo e penitência dos jainistas e a crença budista da persistência do conhecimento através da reencarnação - que não seria possível porque o conhecimento crescia apenas nos corpos adultos e não nos embriões, que não tinham os meios sensoriais de adquiri-lo. Por isso, o conhecimento de uma suposta vida anterior não poderia renascer num novo corpo.[9]

É notável que esses céticos materialistas e ateus rejeitavam também o sistema social de castas, que chamavam de artificial, irreal e inaceitável, pois as semelhanças físicas entre pessoas de diferentes castas eram óbvias.[11]

Seus oponentes questionavam: se são os elementos da natureza que compõem a sensibilidade que só se observa nos humanos, por que coisas inanimadas como um pote ou um vaso não têm também essa sensibilidade, se são compostos dos mesmos elementos?

Erich Frauwallner relata que a resposta da filosofia Cārvāka partia da seguinte argumentação: assim como "a força da embriaguez, quando está aparecendo, pressupõe não apenas a presença de coisas necessárias - farinha, água e melaço e os ingredientes restantes, mas também o fato de que estes precisam estar numa condição particular de mistura", "também os elementos só podem produzir a sensibilidade quando aparecem num estado particular, isto é, na forma de corpo, como pele, ossos, carne e sangue. Já no cadáver, essa condição não é preservada imutável e portanto a sensibilidade dele desapareceu."[9]

Esta explicação geral tem sido confirmada com êxito pelas ciências naturais na modernidade. Os cārvākas veriam as modernas biologia evolutiva e fisiologia como um grande triunfo de sua escola filosófica. Seu recorrente exemplo da produção do álcool pode parecer ingênuo, mas é preciso: é uma organização particular dos átomos que possibilita a fermentação, e é uma organização particular dos átomos que possibilita a percepção sensorial e (como estamos ainda elucidando) a própria mente. Ter percebido que necessidade e contingência interagem a partir de elementos naturais para trazer os fenômenos observáveis à tona é um grande mérito para humildes pensadores de mais de dois mil anos atrás.

Enquanto seus pares culturais se perdiam em leis de retribuição para explicar a sucessão intermitente de alegrias e reveses da vida, os pensadores de Lokāyata apelavam para a emergência acidental de bolhas na água para ilustrar este processo.[9, 13] Além de todas essas objeções epistemológicas à ortodoxia hindu, eles muitas vezes faziam comentários anticlericais sobre os sacerdotes serem "homens sem inteligência nem energia para exercerem outra profissão"; e se perguntavam sarcasticamente: "se o animal abatido num sacrifício iria para o céu, por que o sacrificador, então, não mata seu pai para despachá-lo para o céu?"

Para os cārvākas os autores das escrituras (Vedas) eram trapaceiros, vis, e mentirosos que tentavam passar sua "tagarelice ininteligível" por "palavras de homens sábios". Por essas razões ninguém deveria se preocupar em acreditar nas escrituras, e sim em ser feliz, pois a vida não tem retorno "uma vez que o corpo se torna cinzas".[9]

A manifestação do ateísmo materialista e não materialista através dos milênios da cultura indiana indica que, se há algo inevitável no pensamento humano, é a pura busca de respostas, e não uma convergência universal para o teísmo como resposta absoluta. Os adeptos de Samkhya eram religiosos sem precisar de nenhum deus, os budistas explicavam a continuidade da memória sem precisar de uma alma, e os cārvākas pregavam a felicidade sem necessidade de almas, deuses ou reencarnações, se importando apenas com o perceptível e diretamente inferível, ao ponto de notarem que a separação da sociedade em castas era algo absurdo, coisa que apenas disparates supersticiosos poderiam sustentar.
Madhava Acharya, o filósofo do século XIV citado por Amartya Sen, fez uma enfática defesa da ética secular adotada por estes materialistas séculos antes:

A única finalidade do homem é o deleite produzido pelos prazeres sensoriais. Não podes dizer que tais não podem ser chamados de finalidade do homem por serem sempre imiscuídos com algum tipo de dor, porque é nossa sabedoria desfrutar o prazer puro tanto quanto pudermos, e evitar a dor que inevitavelmente o acompanha... Não é, portanto, por nós, através de um medo da dor, rejeitar o prazer que nossa natureza instintivamente reconhece como agradável.[14]

Veremos adiante que este pensamento de desvincular a ética de autoritarismos divinos ou de supostas leis inevitáveis de "carma", e associá-la à vida cotidiana experimentada pelos sentidos, foi importante também para descrentes da China e do ocidente.
A escola filosófica de Lokāyata/Cārvāka desenvolveu independentemente este e outros fundamentos para os quais convergem os ateus e céticos modernos.

Na história moderna esta escola (juntamente com outras) caiu em esquecimento para o grande público, sendo lembrada por estudiosos acadêmicos e intelectuais como Amartya Sen. Muitos dos famosos gurus indianos da modernidade, apesar de suas pregações sobre o sobrenatural, fizeram questão de confirmar em suas atitudes o que disseram Acharya e os  cārvākas sobre as finalidades hedonistas do homem.

Por exemplo, quando os Beatles romperam relações com o guru indiano Maharishi Mahesh Yogi, a razão foi que, apesar de seus ensinamentos transcendentais, o guru tinha revelado interesses muito terrenos ao tentar estuprar uma seguidora.

John Lennon [15] escreveu uma música inspirado por este momento em que Maharishi revelou sua "finalidade": esta canção, que num primeiro momento receberia o nome Maharishi, é Sexy Sadie (1968), que diz:
"Sexy Sadie, o que você fez?
Você fez todo mundo de bobo
Sexy Sadie, você quebrou as regras
Você expôs para todos verem
Sexy Sadie, como você sabia?
O mundo estava só esperando por você
Sexy Sadie, você ainda vai levar a sua
Não importa o quão grande você pensa que é"

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Notas, referências e leituras adicionais


1 - Bart D. Ehrman. Debate com William Lane Craig. 2008.

2 - Karl Popper. A sociedade aberta e seus inimigos. Ed. da Universidade de São Paulo, 1987.

3 - Bart D. Ehrman. O que Jesus disse? O que Jesus não disse? Editora Prestígio, 2006.

4 - Disse Edward Gibbon, em "A História do Declínio e Queda do Império Romano" (apudWikipédia , 2009):

"Mas como deveremos perdoar a negligência indiferente do mundo pagão e filosófico que foram apresentadas, não para seu julgamento mas para os seus sentidos? Durante a época de Cristo e seus apóstolos, e dos seus primeiros discípulos, a doutrina que eles professavam era confirmada por inúmeros prodígios. Os coxos caminhavam, os cegos viam, os doentes eram curados, os mortos ressuscitavam, demónios eram esconjurados e as leis da Natureza eram frequentemente suspensas em benefício da igreja. Mas os sábios de Roma e da Grécia desinteressaram-se deste horrível espetáculo e, prosseguindo as suas ocupações normais da vida e do estudo, pareciam inconscientes de quaisquer alterações na moral e no governo material do mundo. Sob o reinado deTibério, o mundo inteiro, ou pelo menos a celebrada província do Império Romano, estava envolvido na obscuridão sobrenatural. Mesmo este evento miraculoso, que deve ter apelado à curiosidade e devoção da humanidade, passou sem grande notícia numa época de ciência e de história. Aconteceu durante a vida de Séneca e de Plínio o Velho, que devem ter experienciado os efeitos imediatos ou recebido a informação mais privilegiada do prodígio. Qualquer um destes filósofos recolheu detalhadamente os fenómenos da natureza, tremores de terra, cometas e eclipses que a curiosidade infatigável pode recolher. Quer um quer outro omitiram uma menção ao maior fenómeno que algum mortal testemunhou desde a criação do globo."

5 - Kumar, Vikrant et al. Y-chromosome evidence suggests a common paternal heritage of Austro-Asiatic populations. BioMed Central, 2007.

6 - California Magazine, julho/agosto de 2006. University of California - Berkeley. apud Wikipedia, 2009.

7 - Atheism in Hinduism. Wikipedia , 2009. Ver também Enciclopédia Mirador, verbete "Ateísmo".

8 - Disse Siddhartha Gautama, o Buda, em Anguttara Nikaya (apud Pharyngula , 2009):

"Não se deixe enganar por relatos ou tradição ou opinião comum. Não se deixe enganar pela proficiência nas escrituras, nem pela especulação e conclusões, nem por teorias atraentes ou ideias favoritas, nem por impressões de méritos pessoais (do professor) e nem pela autoridade de algum mestre. Mas antes, Kalamas, quando discernirdes: essas coisas são inúteis, essas coisas são condenáveis, essas coisas são repreendidas pelo sábio; essas coisas, quando cumpridas e realizadas conduzem ao infortúnio e à dor, então deveis certamente rejeitá-las. (...) E quando discernirdes: essas coisas são úteis, essas coisas não são condenáveis, essas coisas são enaltecidas pelo sábio; essas coisas, quando cumpridas e realizadas conduzem à boa fortuna e à felicidade, então deveis certamente aceitá-las."

Outro partidário do Budismo, o filósofo Dharmakirti, influenciado pelo sistema Cārvāka, escreveu no século VII da Era Comum (na obra Pramanvartik, apud Wikipedia , 2009):

"Acreditar que os Vedas são esteio (santos ou divinos), acreditar num Criador do mundo,
Banhar-se em águas sagradas para ganhar punya [mérito budista], ter orgulho (vaidade) sobre sua casta,
Fazer penitência para absolver pecados,
São os cinco sintomas de ter-se perdido a sanidade."

9 - Erich Frauwallner. History of Indian Philosophy, vol. 2. Motilal Banarsidass, 1975.

10 - John E. Cort. The Story of Paesi: Soul and Body in Ancient India: A Dialogue on Materialism. The Journal of the American Oriental Society, Oct-Dec, 2003.

11 - Cārvāka. Wikipedia, 2009.

12 - John M. Koller. Skepticism in Early Indian Thought. University of Hawaii Press, 1977.

13 - Para ilustrar a contingência do surgimento da mente no texto "Opiniões, mentes e peixes" (Tetrapharmakos in Vitro, 2009) também usei bolhas na água, o que é uma feliz coincidência.

14 - Acarya. Sarvadarsanasamgraha.apud John Longeway. The Emergence of Philosophical Debate. University of Wisconsin, 2009.

15 - Sexy Sadie. Wikipedia, 2009.

* Eli Vieira é biólogo, mineiro, tem 22 anos, publica suas opiniões no blog Tetrapharmakos in Vitro e divulga a Biologia Evolutiva no portal Evolucionismo.

Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Elogio à matéria


Popularmente, o 'materialismo' é tido como uma certa atitude de apego a bens materiais, ou um sinônimo de 'consumismo'. Mas em filosofia, o materialismo é algo muito mais profundo. Para muitos autores é sinônimo de 'naturalismo': a "doutrina" filosófica segundo a qual o mundo é autossuficiente e autocontido, regulado por processos puramente naturais.

Não faltou na história quem acusasse os materialistas de tirar a beleza do mundo ao dizerem (como dizia La Mettrie) que a mente está fundada em bases puramente materiais.

Tentarei aqui exorcizar ao menos um preconceito persistente sobre o que significa dizer que algo é material. Me parece que quando alguém diz que os seres vivos são matéria, incluindo os homens, não raro se pensa em matéria como um pedaço de tijolo, uma pedra ou algo assim. Isso é, naturalmente, uma ilusão.

Na comunidade científica não se fala mais em "fantasmas" na matéria. Os fantasmas parecem estar mortos e enterrados, tanto o elã vital quanto o dualismo cartesiano. Inclusive, sobre essa última instância, no século XX Francis Crick chamou o monismo mente-corpo de uma "hipótese impressionante" (The Astonishing Hypothesis). Mas já nesta época não tinha nada de impressionante, não para quem estuda em detalhe a ciência e filosofia da cognição, como António Damásio e Gilbert Ryle.


Para o propósito de exorcizar a ideia anacrônica de matéria e materialismo que mencionei anteriormente, tomarei a biologia molecular da célula. É isso o que deve se ter em mente ao falar na materialidade da vida, não tijolos e paredes.

Vejamos então o melhor modelo já construído para tentar passar ao público leigo o que sabemos hoje sobre as células (das quais os neurônios responsáveis pela mente são apenas um caso particular). Trata-se do vídeo "The Inner Life of The Cell", magnífico trabalho de modelagem 3D da XVIVO em parceria com a universidade de Harvard. Sugiro que seja assistido agora, e depois denovo fazendo pausas de acordo com o roteiro que escrevi adiante. Eis o vídeo:



É bom lembrar que essa animação foi usada indevidamente, roubada, pela produção do documentário criacionista "Expelled", apresentado por Ben Stein nos Estados Unidos.

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No comecinho da animação temos um vaso sanguíneo de calibre algumas vezes maior que o calibre de um capilar. Nesse nível o sangue corre mesmo em fluxo laminar, sem parar, você não percebe as pequenas pausas no batimento cardíaco.

Isso já é uma beleza porque mostra que o filme é fisiologicamente correto.

As hemácias (00:11) correm mais no meio do vaso, e as células do sistema imunológico rolam pela periferia do vaso. Isso mostra que o filme é histologicamente correto.

Aquelas células branco-azuladas (00:08-00:12) são 'glóbulos brancos'. Mas isso não diz quase nada. Esse termo só serve para diferenciar num microscópio de luz a diferença entre "glóbulos vermelhos" (eritrócitos, hemácias) e "glóbulos brancos" (leucócitos), que são ambos os componentes celulares visualmente discrimináveis do sangue sem auxílio de corantes.

Enquanto as hemácias são todas a mesma coisa - células lotadas de hemoglobina sem um núcleo, os chamados "glóbulos brancos" podem ser vários.

Os que são mostrados nesse trecho podem ser linfócitos (mas também podem ser monócitos, macrófagos, mastócitos, que também saem da corrente sanguínea).

O filme não é uma sequência aleatória de imagens. Tudo ali é parte do processo de diapedese: a migração de um linfócito da corrente sanguínea para um tecido qualquer, como por exemplo o córtex de um nódulo linfático. Isso vai ser mostrado no fim do filme (02:50-02:57).

Isso acontece todos os dias, todos os minutos nos nossos corpos, e é assombrosamente bonito.

Se não fosse a diapedese, os linfócitos não se encontrariam com as pequeníssimas amostras de antígenos (que são pistas químicas da presença de possíveis microorganismos causadores de doenças), amostras que são depositadas em pequenos ferimentos na pele que ultrapassam a barreira protetora de células mortas: naquela arranhada que você deu no rosto, naquele naco de cutícula que você distraidamente arrancou com o dente, naquela mordida que você deu na própria língua.

Mas eu não vi nada de reação entre antígenos e imunoglobulinas nesse vídeo, então esqueça esse assunto.

Alguém deve se lembrar de alguma professora que teve no ensino fundamental que desenhou uma célula como se fosse uma bolinha com outra bolinha dentro, ou que tenha explicado que o citoplasma seria como um suco entre a bolinha interna e a externa.

Mas as coisas são muito mais complicadas, mais bonitas, e mais organizadas que isso.

O formato das células é mantido pelo citoesqueleto. O citoesqueleto é importante para entendermos como é possível aquele linfócito passar entre as células apertadas do endotélio (parede do vaso sanguíneo) como aqueles gatos serelepes que passam por debaixo da porta.

Acontece muita coisa entre os 15 e 30 segundos de filme.

Então, vamos por partes. Primeiro, olhe dos 13 aos 16 segundos iniciais.
É muita informação para três segundos de filme. Aquilo é o zoom do que está acontecendo na rolagem do "linfócito" (vamos assumir que seja um linfócito) sobre o endotélio.

Em cima, o endotélio tem várias proteínas de membrana, mas as que interessam aqui são as que estão causando a rolagem do linfócito.

A rolagem do linfócito pela parede do vaso sanguíneo é causada pela interação fraca entre proteínas que estão não membrana do linfócito, chamadas selectinas, e grupamentos de açúcar ligados a proteínas do endotélio (chamadas "ICAM").

Quando eu digo "interação", estou usando de uma quimera linguística que busca descrever o comportamento de campos elétricos de cargas parciais nas nuvens eletrônicas das moléculas desse grupamento de açúcar e de regiões específicas da ponta externa das selectinas.

As selectinas são as proteínas roxas mostradas entre 00:16 e 00:21, interagindo com as alaranjadas que estão em cima, as ICAM.

A minha interpretação do filme pra mostrar que ele conta a história da diapedese começa logo em seguida.

De 00:22 a 00:29 o filme mostra o espaço entre a célula endotelial (em cima) e o linfócito (em baixo), com outras proteínas participando da interação entre as duas células que permite a passagem do linfócito para fora do vaso sanguíneo.

Já em 00:30 começamos a ver o espaço intracelular, me parece que do linfócito.
Até 00:40 são visíveis várias proteínas de ancoragem, e os filamentos que formam a parte mais externa do citoesqueleto (filamentos de espectrina). Esses filamentos são responsáveis pela "cara" da célula. Quando uma célula muda de forma ela reorganiza os filamentos do citoesqueleto, como quando uma ameba vai fagocitar uma presa.

O motivo pelo qual a mudança de forma da ameba é feita praticamente da mesma forma como é feita a mudança de forma de um linfócito é que nós e a ameba compartilhamos uma espécie ancestral comum que fazia as coisas desse jeito. Esse ancestral viveu há bilhões de anos atrás, e este é o legado maravilhoso dele.

De 00:42 a 00:50 vemos a natureza de alguns dos filamentos da periferia da célula: em cor de rosa, filamentos de actina. Em verde, parece que é alfa-actinina, organizando os filamentos de actina.

A partir de 00:50 entramos mais para dentro no citoplasma, e a organização dos filamentos de actina em rosa é diferente.

Até 01:00 é mostrada a dinâmica da polimerização e intercruzamento desses filamentos de actina. Esses filamentos se polimerizam em hélice. É uma hélice com 5 a 9 nanômetros de diâmetro. A polimerização acontece a partir dos monômeros, as "bolinhas" cor de rosa, que são codificadas pelo mesmo gene. As partes amarelas grudadas aos filamentos de actina são de filamina, outra proteína que organiza a estrutura tridimensional dos filamentos de actina.
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Entre 01:00 e 01:04 é mostrado que além de se polimerizarem os filamentos também podem ser cortados. O corte é feito pela gelsolina, mostrada em amarelo.
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Depois vemos entre 01:06 e 01:10 a polimerização do mais calibroso dos filamentos do citoesqueleto: o microtúbulo, com 25 nanômetros de diâmetro. São microtúbulos, organizados em nove pares periféricos e um par central dentro de longas projeções cilíndricas de membrana que dão o poder da motilidade às células, do paramécio com seus cílios ao espermatozoide e à Euglena com seus flagelos. Novamente legados de ancestrais comuns. (De 01:10 a 01:13 vemos a despolimerização do microtúbulo. As unidades que formam o microtúbulo são a proteína tubulina.)
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Além disso os microtúbulos são como uma estrada de ferro dentro da célula. É sobre um deles que está "caminhando" a proteína motora cinesina em 01:15.

O que a cinesina está carregando não é um vacúolo, é uma vesícula, formada por membrana, o mesmo esquema de membrana que vimos antes no vídeo.
Para "andar" (e isso é denovo uma quimera linguística para complexas interações de campos elétricos de nuvens eletrônicas), a cinesina gasta ATP, ou seja, energia.

Finalmente em 1:26 temos uma perspectiva ampla da célula, mostrando os microtúbulos irradiando a partir de um centro, que é o centrossomo, próximo ao núcleo.

Em cinza vemos belas mitocôndrias, produzindo o ATP já mencionado.

Mitocôndrias, como tudo o mais, lembram evolução também.
São fruto de uma briga que se tornou um casamento que já dura bilhões de anos: um parasita que sofreu mutações e seleção natural de modo a se tornar parte de um hospedeiro. Se não pode com eles, junte-se a eles.

Em 1:30, atrás da mitocôndria à direita vemos ao longe uma rede de membranas, ou seja, retículo endoplasmático, e abaixo dela uma grande esfera, o núcleo, contendo o segredo da persistência da vida: os genes, a planta a partir da qual essa linda casa celular foi construída.

Em 1:33, RNA's mensageiros emergem dos poros do núcleo. As duas subunidades (em verde) do ribossomo se encontram para traduzir o RNA mensageiro em proteína.
A proteína emerge do RNA na forma de um filamento laranja (01:46) que rapidamente se dobra.

"Dobrar-se" aqui é uma coisa complicadíssima que a biofísica moderna está longe de compreender satisfatoriamente. "Dobrar-se" também é uma quimera linguística para interações físicas entre a cadeia de átomos da proteína e esse espaço incolor que a rodeia, a água, também com suas moléculas, cargas parciais, nuvens eletrônicas. É de tirar o fôlego a beleza da matéria, aqui insuflada da organização viva.

As proteínas são traduzidas e têm destino certo. É o que exemplifica o complexo que, caoticamente através do movimento browniano (que tem fundamento na mecânica quântica, que eu saiba) chega até a mitocôndria, o que é mostrado entre 1:50 e 1:57.

Em 2:00, vemos na superfície externa do retículo endoplasmático rugoso que algumas proteínas são traduzidas através de um poro na membrana para saírem dentro do retículo. Isso acontece porque a seleção natural moldou mecanismos que garantam o tratamento adequado das proteínas de acordo com o modo como interagem com a água e com a membrana, e de acordo com sua atividade enzimática ou de interação com outras moléculas.

Por isso existem compartimentos de tratamento de proteínas como o retículo e o complexo de Golgi.

O retículo pode trocar seu conteúdo interno com o complexo de Golgi. Isso ele faz liberando vesículas (02:06-02:07). A formação dessas vesículas de membrana é também intermediada por proteínas que não são mostradas no vídeo, como a clatrina.

Nem toda vesícula do retículo se funde ao complexo de Golgi. Algumas já estão "prontas" para serem transportadas pela cinesina, que aparece denovo em 02:11. (Existe uma outra proteína motora não mostrada no vídeo, chamada dineína, que faz o caminho inverso da cinesina.)

Mas outras vesículas são fundidas ao Golgi. O complexo de Golgi, como mostrado em 02:15, é um conjunto de sacos de membrana achatados (cisternas), que trocam seu conteúdo entre si através de vesículas. Cada compartimento está lotado de enzimas que tratam as proteínas que estão lá dentro.

Algumas proteínas são liberadas para fora da célula. Em 02:24, a vesícula transportada pela cinesina se funde com a membrana celular e libera seu conteúdo. Algumas proteínas são livres e caem na corrente sanguínea. Outras estão ancoradas na membrana, como as proteínas alaranjadas que mudam de conformação em 02:40 (são integrinas).

Essas proteínas estão no linfócito e vão interagir mais fortemente com proteínas da superfície do endotélio, acima.

O linfócito pára de rolar, porque agora a interação é mais forte que a interação que causa a rolagem. Ele então, mudando a organização das fibras do citoesqueleto, deixa de ser globoso e passa a ser amebóide o suficiente para passar entre duas células endoteliais.

O que causa essa mudança de comportamento do linfócito?

Um exemplo está no vídeo a seguir:



Quando um ferimento é causado numa nadadeira de uma larva de peixe-zebra, as células mortas e danificadas liberam moléculas quimiotácticas, junto com bactérias invasoras e outras células de defesa. Essas moléculas quimiotácticas são reconhecidas pelo endotélio da veia (mostrada em baixo). O endotélio da veia, em resposta, começa a liberar mais moléculas de adesão em sua membrana celular.

São essas moléculas de adesão, como as proteínas ICAM, que prendem o linfócito num ponto específico da veia, onde ele realiza o movimento de diapedese (descrito no vídeo Inner Life of The Cell) e pode agir onde ele é necessário.

Parece inteligente, mas é puramente mecânico. A ordem da vida existe em função da existência da vida, e não o contrário. A evolução pela seleção natural nada mais é do que a sobrevivência de variantes desses processos esboçados nos genes, que mudam cegamente.

É porque fazemos isso, entre outras coisas, que nós e o peixe zebra existimos. Não existimos para fazer isso. Não há evidência de que existamos para qualquer coisa. Saber dessa cosmogonia evidenciada, da emergência da ordem e da beleza a partir do caos, e articulá-la com uma ética que visa a preservação dessa ordem e dessa beleza, criando finalmente propósitos para as nossas vidas particulares, é um privilégio do qual poucos gozam neste mundo.

A ciência, esta chama tremeluzente em meio a um mar de trevas, nos mostra que é no pequeno e no raro, e não no grande e opressivo, que as respostas estão. Usamos nossas quimeras linguísticas porque o mundo é mais belamente assombroso e estranho do que podemos supor. Atentai para o mundo físico, observai a matéria, meus amigos, porque é melhor conviver racionalmente com quimeras metodológicas do que se curvar a delírios arrogantes dos que pensam encontrar a verdade anestesiando a razão.

Matéria não se resume a pedras, a coisas impenetráveis e "sólidas". Esta ideia é anacrônica e é refutada pelo que sabemos sobre estrelas, galáxias, células e cérebros. Não é mais surpreendente que a matéria tenha o poder de sustentar mentes.

***

Agradeço às minhas fontes:

- Aulas da excelente equipe de professores do Instituto de Ciências Biológicas da UnB;

- Leituras cujos autores não conseguirei me lembrar agora;

- Molecular Biology of The Cell, livro de Alberts e seus colaboradores, publicado pela Garland Science em 2002.

P.S.: Peço desculpas aos daltônicos por ter identificado algumas coisas no filme pela cor.

Segunda-feira, 27 de Abril de 2009

Doutrinação: um mal maior ainda

Tenho um incômodo e um temor. Me incomoda o modo prosélita como alguns ateus têm se comportado, e eu temo que o número de pessoas ateias que pensem que ser ateu vem antes de ser cético e científico cresça demais.

Na verdade, quando li a última página de "Deus, um delírio" [The God Delusion] há quase três anos, a primeira coisa que pensei foi "este livro é ótimo, mas justamente por ser didático e simplificado pode dar para alguns a falsa impressão de que é suficiente, e essas pessoas que pensarem assim serão prosélitas".

Talvez seja inevitável que seja este o caso: sempre que algo consistente se torna mais difundido, haverá a leitura preguiçosa, servirá como fonte para proselitismo e para aquele defeito sutil que se costuma chamar de"self-righteousness" (um termo que resume aquela atitude arrogante de quem tem um excesso de confiança em si mesmo ao ponto de ser surdo para contra-argumentação).

Lamento parecer levemente melindroso, mas tenho motivos para essas reclamações.

Por exemplo, a revista Época, em agosto do ano passado, noticiou que


O filósofo argentino Alejandro Rozitchner defende uma educação ateísta a seus três filhos e diz já saber o que falar quando um deles lhe perguntar sobre Deus. "Vou dizer que é um personagem como o Buzz Lightyear ou o Woody do Toy Story."


Neste quesito, eu sou quase tão contra Rozitchner quanto sou contra Ratzinger.

ChildIndoctrination2 Isso é doutrinação infantil e é ruim: gera crédulos, não céticos. Por quê?

Primeiramente porque as evidências não dizem terminantemente que Deus (o dos cristãos) é como Buzz Lightyear.
Buzz Lightyear foi uma entidade sabidamente inventada e proposta como ficção, enquanto deus, qualquer que seja, é proposto como pertencente à realidade. Avaliar a realidade cabe àqueles que a estudam. Minha conclusão é de que deuses são improváveis, tão evanescentemente improváveis que vivo minha vida na suposição de que não existem.

Este pai chamar suas crianças de ateuzinhos é tão adequado quanto chamá-las de humanistas seculares, de marxistas, ou de petistas: elas simplesmente não têm conhecimento e maturação mental para pertencer a nenhum desses rótulos.

Protestar contra a doutrinação de crianças, mesmo que seja doutrinação pelo meu ateísmo, é questão de honestidade intelectual.
Por mais ridículos e fantasiosos que sejam, os deuses fazem parte de hipóteses filosóficas dignas de apreciação. Imputar a crianças uma negação dessas entidades é sim doutriná-las. Um dogma negativo não deixa de ser um dogma.

Apresentar prontas suas próprias conclusões a crianças (que são seres volúveis e em maturação que acreditarão prontamente em qualquer coisa que digam os pais sem nenhum critério de rejeição), sem esperar que cresçam e sejam capazes de conhecer suas premissas e refazer a argumentação que você fez, não tem outro nome: é doutrinação.

AdoctrinamientoInfantil1Se nós ateus começarmos a doutrinar crianças, vamos agir  exatamente como os porcos de George Orwell (no livro A Revolução dos Bichos): nos tornaremos exatamente aquilo que condenávamos.
O exercício do raciocínio e da argumentação não pode ser passado na forma de doutrinação, muito menos doutrinação infantil. Que validade tem uma opinião construída por aceitação cega das conclusões de outrem?

Não pode ser uma educação libertadora e crítica a mera replicação de memes de pais para filhos.

Geocentrismo é mais errado que heliocentrismo, e heliocentrismo é errado à luz da cosmologia moderna, que tem evidências bem convincentes de que se há um centro do universo, este não é o sol.
Uma criança só compreenderá o que são geocentrismo e heliocentrismo quando puder apreender conceitos como sol, planeta, órbita, gravitação, estrela. Não é doutrinando que ensinamos o que são essas coisas, e a evidência de que heliocentrismo é mais correto que geocentrismo é universal e acessível, a criança deve crescer para ser capaz de ter acesso a essa evidência.

Falo em heliocentrismo para mostrar que não podemos comparar os cálculos de Galileu e as observações de Hubble (o cientista ou o telescópio) com a inexistência de toda e qualquer divindade. Não seria epistemicamente coerente (nem correspondente), nem intelectualmente honesto.

Não observamos nada como o que fala Antônio Vieira (não o padre, me refiro ao homônimo escritor moderno) em um de seus contos, em que astrônomos acham o enorme corpo de deus morto entre as galáxias.

É melhor explicitar a diferença que estou traçando tacitamente entre ensino e doutrinação.

Doutrinar não é apenas ensinar. Ensinar aos filhos como se portar, a ter higiene, não pode ser doutrinação, pois não há nessas coisas elementos inverificáveis e subjetivos. Ter higiene é ter mais saúde, isso é verificável, foi verificado, e ensinar isso aos filhos é dever dos pais. Isso faz parte do senso comum, ou seja, dos conhecimentos universais da humanidade.

Doutrinar é passar adiante fundamentos filosóficos/religiosos/políticos que não podem ser conhecimento universal pelos seguintes motivos:


- não dependem de evidências universalmente e facilmente verificáveis.

- são mais resultado de argumentação filosófica (doxa) do que de conhecimento objetivo (episteme).


Mostrar aos filhos que higiene é importante é ensino. Dizer aos filhos que lavar as mãos é ter pureza e que pureza é condição necessária para uma vida após a morte é doutrinação.

Dawkins e Dennett têm a sensatez que falta a Alejandro Rozitchner. O propósito das obras ateias de Dawkins e Dennett (e posso incluir Michael Martin, Sam Harris e talvez Christopher Hitchens) não se resume a mostrar que as bases sobre as quais se apóiam os dogmas religiosos são frouxas e por isso eles não merecem tanta crença.

Uma motivação mais nobre desses pensadores é mostrar que vários problemas pelos quais a humanidade já passou são resultado de doutrinação - ou seja, imposição de opinião, e pior, ‘conhecimento’ sem fundamentação racional alguma. Ensinar uma língua a uma criança é diferente de doutriná-la com afirmações como


- "Jesus morreu para salvar a humanidade e é filho de Deus."

- "Maomé é um profeta que recebeu a verdade absoluta do anjo Gabriel."

- "Todo e qualquer deus não existe, tenho absoluta certeza de que são invenções como Buzz Lightyear, então você não precisa pensar a respeito, apenas acredite em mim. Não se incomode em crescer e entender minhas premissas para essa conclusão, apenas engula o que eu digo porque sou seu pai e você confia cegamente em mim."


Bertrand Russell já alertava para a preguiça intelectual de aceitar a tradição sem entender minimamente o que a fundamenta. Passar o ateísmo adiante através da doutrinação infantil pode ser melhor que passar o cristianismo adiante da mesma forma, entretanto, isso não é estimular pensamento crítico, isso é criar outra tradição doutrinatória. Isso é fazer o que já é feito há séculos: se aproveitar da aceitação cega das crianças ao que dizemos para elas para dá-las já mastigada uma conclusão nossa que, mesmo racional e fundamentada, muito tem de subjetiva.

Somos livres para, como apontou Russell, escolher a razão para ir até as fronteiras do nosso conhecimento e desconsiderar métodos não-racionais de obter respostas, como a revelação. Mas esta tem que ser uma decisão consciente e argumentada pela própria pessoa consigo mesma.

Se a maioria das pessoas nem percebe a fragilidade das crenças religiosas, é por causa da doutrinação (ou da preguiça intelectual, ou da falta de prioridade que dão ao assunto). Se as pessoas não reconhecem prontamente o erro da homofobia ou do racismo, também é por causa da doutrinação (não é conhecimento objetivo dizer que todo mundo tem que se comportar da mesma forma ou ter a mesma aparência). Se não da doutrinação, do desenrolar de um barbarismo mental que não encontrou a luz do pensamento civilizatório, o que é outro assunto.

Se nos próximos anos começarem a ver por aí filhos de ateus que fazem proselitismo e não têm nenhuma capacidade de pensamento crítico ou argumentação racional, lembrem-se do que eu disse sobre doutrinação infantil ser prejudicial.

Doutrinação é um mal, assim como é um mal o dogmatismo, e os dois estão intima e indissoluvelmente associados.

Se meus argumentos não foram suficientes até aqui para mostrar que a doutrinação é um mal, ainda posso usar estudos de caso.

180px-JohnStuartMill Que resultados gera uma educação rigorosa? Um dos resultados de uma educação rigorosa foi o brilhante filósofo John Stuart Mill, que entre outras coisas foi um dos primeiros a defender o direito das mulheres ao voto.

 

Que resultados gera uma doutrinação rigorosa? Imagens valem mais que mil palavras.

silas

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