sábado, 31 de janeiro de 2009

Resposta ao Chanceler Augustus Nicodemus Gomes Lopes

O Dr. Augustus, na qualidade de autoridade máxima da chancelaria da Universidade Presbiteriana MacKenzie, achou proveitoso publicar no sítio eletrônico dessa universidade uma nota sobre ateísmo.


Começa com uma simpática citação do Salmo 14, e em seguida afirma que a descrença é tão antiga quanto a humanidade. Eu não consigo imaginar como poderia ser assim, se no livro considerado a pedra fundamental dessa instituição, a Bíblia, estão narradas tantas manifestações pirotécnicas da presença divina: com mares se abrindo; ursas atacando moleques que se punham a xingar profetas de careca; pessoas subindo aos céus como balões de hélio, algumas com carruagens de fogo, outras sem; brutamontes assassinando povos infiéis com o auxílio de nada mais que mandíbulas de javali; e messias dizendo que vêm para trazer a espada e que haverá choro e ranger de dentes.


Como poderia haver descrentes desde a aurora da humanidade, com todas essas manifestações claras e distintas da presença divina? Talvez agora, com o silêncio absoluto desse deus, possamos ter motivos para descrer, mas quando a humanidade estava em seu começo (quanto tempo, 6 mil anos, chanceler?), não, não tínhamos motivo algum para sermos tão insensatos!


Depois dessa brilhante introdução, o Dr. Augustus diz que o IBGE contabiliza os ateus brasileiros em meros 7%. O que não é exatamente o caso, dado que o IBGE se recusa a incluir ateísmo entre as opções de definição religiosa do censo.


Mas, considerando que seja verdade, imagino que o Dr. Augustus tenha alguma noção estatística de que, se 7% dos brasileiros são ateus, ao menos alguma fração dos alunos da Universidade MacKenzie é também de ateus. E aí está o chanceler da universidade, a acusar insensatez em parte considerável de seus pupilos. Deve um chanceler incentivar tal hostilidade?


Em seguida, Augustus cita o livro "Deus, um delírio" de Richard Dawkins, e especula:


“Penso que a popularidade da obra se deve mais à curiosidade das pessoas em ver os argumentos dos ateus contra a existência de Deus do que propriamente de encontrar ali a solução para dilemas existenciais.”


Eu imagino que a Filosofia conste entre as disciplinas oferecidas pela universidade do chanceler. Se ele se prestar ao trabalho mínimo de um dia humildemente se sentar entre os alunos dessa disciplina, aprenderá a separação clara que vários pensadores traçam entre epistemologia e ética. E que, se um livro quer questionar epistemologicamente a existência dos deuses, não tem a mínima obrigação de dizer como as pessoas devem agir (ou resolver seus dilemas existenciais). Para isso, temos coisas como as leis, a empatia, o amor entre as pessoas, que pelo que me consta, não têm evidência alguma de terem sido plantados na humanidade por mãos invisíveis, muito menos as mãos invisíveis de um deus particular nascido na idade do bronze, em detrimento dos milhares de outros deuses já propostos pelas mais diversas culturas.


Em seguida, Augustus diz que os argumentos desse livro são "velhos e desgastados". Por que seriam desgastados não fica claro, dado que ele não parece preocupado em descer de seu tom acusatório para refutá-los, o que seria mais intelectualmente honesto. E se a linguagem do livro é, segundo o chanceler, "ofensiva e ácida", que ele saiba que tem todo o direito de se sentir ofendido, mas que ultraje tampouco é refutação.


Depois, o chanceler, infelizmente, emite mentiras descadaras: afirma que Dawkins diz no livro que a ciência refutou Deus, que a religião é má e que a religião tem origem num "vírus da mente". Quando na verdade, o que Dawkins disse, junto com filósofos como Daniel Dennett e Sam Harris, é que a ciência moderna torna inférteis e improváveis as hipóteses divinas. Não é preciso muita refinação intelectual para compreender a diferença entre a caricatura feita por Augustus e o que de fato está no livro.


Sobre "vírus da mente", essa metáfora de fato é empregada, mas em alusão a todo um novo campo de pesquisa, que é a evolução cultural. Ou o Dr. Augustus espera que a cultura seja criada especialmente por Deus junto com os animais e as plantas? "Vírus da mente" também se refere à compreensão crescente que temos dos mecanismos neurofisiológicos de aquisição de crenças sem referência alguma no mundo sensível, como os deuses. Harris, Sheth e Cohen são alguns pesquisadores pioneiros nesse campo. O que mostram é que, grosso modo, acreditar em deuses não é fisiologicamente diferente de acreditar no Curupira ou no Saci.


Portanto, dizer que os argumentos do livro de Dawkins não têm "embasamento na realidade" não passa de um delírio do Chanceler Augustus. O chanceler, por fim, comete uma falácia (argumentum ad verecundiam) ao alegar que cientistas "do mesmo calibre de Dawkins" acreditam em Deus. Isso não é uma inverdade, dado que temos Francis Collins. Entretanto, as premissas de Collins em favor de "Deus" não têm nada a ver com ciência, ou seja, não têm referência alguma em evidências. Apenas homilias morais, arrebatamentos ético-estéticos, como de praxe.


Mas mesmo no campo das falácias Dr. Augustus não se dá bem, pois a esmagadora maioria dos cientistas não acredita em um deus pessoal.


Quanto à afirmação do Dr. Augustus, de que "regimes ateístas" mataram mais que qualquer cruzada, carece de fontes. Se se refere aos regimes comunistas, sabemos muito bem o que o culto à personalidade e o dogmatismo dos comunistas, análogos perfeitos das religiões, podem fazer.


Encerrando, o Chanceler Dr. Augustus Nicodemus Gomes Lopes diz vagamente que há quem responda aos argumentos de Dawkins (que é tarefa da qual o chanceler quis se eximir), e entre essas pessoas está Alister McGrath. Tanto pior, pois Alister McGrath tem escrito livros falaciosos que simplesmente fogem da questão contida no livro de Dawkins: se é preciso um deus para explicar a origem da complexidade, de onde vem a complexidade do próprio deus? Por isso, deuses nunca explicaram nada. Não passam de péssimas hipóteses, por mais consoladoras que sejam.


Mentes, como diz Dawkins, vêm tarde no processo histórico do universo. Postular uma mente gigantesca, onisciente, onipotente, onipresente, e ainda preocupada com o destino e as vidas de criaturas insignificantes em planetas insignificantes nos subúrbios das galáxias, não faz o menor sentido.


Creio que um chanceler tenha coisas mais nobres para se preocupar, em vez de lançar argumentações falaciosas e discriminatórias no sítio eletrônico de sua universidade.

12 comentários:

Júnior Camilo disse...

Meu amigo, Eli!

Mais uma vez, um excelente texto. Sua resposta não foi apenas precisa; foi igualmente redigida com maestria e sua tônica, confesso, foi inspiradora do primeiro ao último parágrafo.

Sinto-me orgulhoso não apenas da condição de cético quanto às divindades paridas pela acrítica credulidade humana — posição que você brilhantemente advoga no presente texto, em face das acusações infundadas e preconceituosas do Chanceler Dr. Augustus Nicodemus Gomes Lopes —, como também muito me apraz que tão perspicaz manifesto tenha vindo de um grande amigo meu.

Um abraço!

E, de novo, parabéns!

~ Júnior Camilo.

F. Grijó disse...

O texto é excelente, em conteúdo e forma.
Concordo mais do que discordo.
Resta saber: o texto chegou ao chanceler?
Deveria chegar.

(uma amiga sua sugeriu-me seu blog. Acertou em cheio.)

Abraços

Eli Vieira disse...

Grijó, muito lisonjeiro da sua parte.
Sim, o texto chegou à ouvidoria da Universidade MacKenzie.

Fernando disse...

Caro Eli, gostei muito do seu texto. Agradável e bem escrito. Eu mesmo li o livro de Dawkins e confesso que não foi tanto um livro contra Deus, mas contra o fanatismo protestante e criacionista. Claro que Dawkins também não foi 100% honesto ao criticar os evolucionistas teístas. Mas, somos seres humanos!!!

Forte abraço, e continue a escrever

Vera Menezes disse...

Caro Eli,

Obrigada por ter visitado meu blog e ter deixado comentários. Parabéns pela sua argumentação tão bem sustentada e articulada nos textos de seus blogs.

Abraço,

Vera Menezes

Fabiane Linhares disse...

Não há como ler um texto desses e não reparar a falta de luz na escrita . Isso deve-se a obscuridade na linguagem de um mal fundado ceticismo.As refutações ao Rev Nicodemus se mostram desde sua linguística pobre e inconvencível a qualquer estudioso. Enquanto por liberdade muitos usufruem da dialética necessária e forte arma para os cristãos...onde sabemos que o fim de toda dialética será o Absoluto Infinito ...

Refutem..questionem...mas a resposta de lábios finitos nunca serão minha maior sensação de verdade!Uma razão solitária nunca será maior que um agir além do concreto que é o que resta ao homem.Se os ateus pudessem conter o universo nas mãos eu poderia acreditar que eles estão certos.Mas por que deixas soar a vontade de ser o infinito? ..isso é cansar-se em fadiga pela própria incoerência disso em tua essência!



Fabiane Aranha Linhares

Eli Vieira disse...

Fabiane disse:

"Não há como ler um texto desses e não reparar a falta de luz na escrita."

Não há como ler essa frase acima, Fabiane, sem notar a óbvia falácia ad hominem nela contida. Um dos pontos da minha postagem é apontar as falácias do chanceler. É tão difícil assim de notar? Sugiro que busque algum guia de falácias para entender.

"Isso deve-se a obscuridade na linguagem de um mal fundado ceticismo."

Mal fundado ceticismo? E será que a senhora vai argumentar para demonstrar o "mau fundamento" do meu ceticismo, ou vai ficar no tom acusatório e falacioso como o chanceler?


"As refutações ao Rev Nicodemus se mostram desde sua linguística pobre e inconvencível a qualquer estudioso."

E essa frase mostra claramente que você não faz a mínima ideia do que está falando, então emite qualquer coisa para atacar. Linguística pobre... ora... isso é argumento?

"Enquanto por liberdade muitos usufruem da dialética necessária e forte arma para os cristãos...onde sabemos que o fim de toda dialética será o Absoluto Infinito"

Eu sugiro que a senhora pare para pensar melhor no que escreves. Dialética necessária? Sabe do que está falando? Ou achou a palavra "dialética" bonita o suficiente para constar no seu ataque cego?

Absoluto Infinito? Será que aqui temos algum conteúdo? Ou meras palavras para expressar outra coisa sobre a qual a senhora nada deve saber? Por favor... pense duas vezes antes de escrever coisas como esta.

"Refutem..questionem...mas a resposta de lábios finitos nunca serão minha maior sensação de verdade!"

Lábios finitos?? Quer dizer então que há lábios infinitos? Seu deus é um bocão no céu agora?

"Uma razão solitária nunca será maior que um agir além do concreto que é o que resta ao homem.Se os ateus pudessem conter o universo nas mãos eu poderia acreditar que eles estão certos.Mas por que deixas soar a vontade de ser o infinito? ..isso é cansar-se em fadiga pela própria incoerência disso em tua essência!"

Desculpe-me, mas essa passagem me arrancou risos. A senhora transparece não fazer ideia de nada do que está falando, foi só uma tentativa cega de ataque. Mas ficou muito mais para Dom Quixote tentando lutar contra um moinho de vento.

Na certa conheces ALGUÉM que "contenha o universo" em suas mãos, em quem você acredita? Deve ser o chanceler não é?

Outra coisa, incoerência se demonstra também, não se acusa. Foste aluna do Chanceler nesse esforço patético de emitir falácia atrás de falácia e acusação atrás de acusação em vez de argumentar?

Foi o que pareceu.

Eu prezo por argumentos. Se eu quisesse ler ataques cegos e inconsistentes como o teu, cheio de termos flutuando sem contexto e sem nexo, eu iria até o gerador de lero-lero ler textos produzidos automaticamente.

E há uma analogia bem sólida entre o papagaiar de um crédulo e as ilações automáticas de um programa de computador.

Passe bem, e da próxima vez argumente, é bom para seu cérebro.

Eduardo Vaz disse...

Eli

O Augustus comete erros, ams seu texto ta carregado de falacias tambem..

Eli Vieira disse...

Pois então demonstre logicamente a falácia, senhor Eduardo Vaz. Agradeço se já der a classificação da suposta falácia.

E se desceres do tom acusatório como o chanceler, eu agradeço.

Anônimo disse...

Ai, que preguiça....

José disse...

Parece que ninguém gosta de ser contrariado. Se eu elogio o texto, ganho elogios, se eu discordo, ganho patadas...
Concordo com o último comentário: fico com preguiça.

Marcio Gonçalves disse...

Sou a favor do debate no campo das ideias, mas gostaria de elogiar aqueles que combatem a ideia de um Deus criador.
Pois é necessário mais fé para crer que não há um Deus do que crer que existe um ser criador de todas as coisas.

Fico pensando em como podemos explicar a complexidade do corpo humano, a complexidade de uma gestação.

Criação ou evolução? eis a questão.
Criação de uma mente infinita ou simplesmente obra do acaso?
Fica a reflexão.

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