domingo, 2 de novembro de 2008

Cobras peçonhentas, enguias escorregadias e Harun Yahya

por Richard Dawkins (07/07/2008)

Em 2006, eu fui um dos dezenas de milhares de cientistas acadêmicos ao redor do mundo que receberam, sem solicitarem e completamente de graça, um livro enorme e ricamente ilustrado chamado Atlas da Criação, da autoria de Harun Yahya, um turco que faz apologia ao Islamismo. A tese do livro, que foi publicado em onze línguas, é que a evolução é falsa. A principal 'evidência' disso consiste em página após página de belas fotografias de animais fósseis, cada uma acompanhada de sua contraparte moderna que o livro diz não ter mudado em nada desde o tempo do fóssil. É um livro de grande formato, um livro de mesa espesso com mais de 700 páginas coloridas com alto brilho. O custo de produção de um livro assim deve ter sido extremamente alto, e pergunta-se, obrigatoriamente, de onde veio o dinheiro para produzi-lo e distribuí-lo grátis em tantas cópias e tantas línguas.

Dado que toda a mensagem do livro depende da semelhança alegada entre os animais modernos e seus correspondentes fósseis, eu achei graça quando comecei a folheá-lo ao acaso e encontrei na página 468, devotada às "enguias", uma fóssil e uma moderna. A legenda diz,

“Há mais de 400 espécies de enguias na ordem Anguilliformes. Que elas não tenham passado por mudança em milhões de anos uma vez mais revela que a teoria da evolução é inválida.”

A enguia fóssil mostrada pode ser mesmo uma enguia, não sei dizer. Mas a “enguia” moderna retratada por Yahya (ver à esquerda) sem dúvida não é uma enguia mas uma serpente marinha, provavelmente do gênero bastante peçonhento Laticauda (uma enguia, é claro, não é mesmo uma serpente, mas sim um peixe teleósteo). Eu não vasculhei o livro por outros erros desse tipo. Mas dado que essa foi quase a primeira página que olhei… que validade tem a tese central do livro, de que os animais modernos são os mesmos desde o tempo de suas contrapartes fósseis?

Incidentalmente, em maio de 2008 Harun Yahya, cujo nome real é Adnan Oktar, foi sentenciado num tribunal turco a três anos de prisão por “criar uma organização ilegal para ganho próprio.”

P.S. adicionado em 8 de julho de 2008

Agora vi mais algumas páginas desse livro absurdo. As pranchas de página dupla nas páginas 54-55, 368-369 e 414-415 estão todas rotuladas como “crinóide”, e todas pretendem mostrar o quão similares são os crinóides antigos fossilizados aos modernos. Os crinóides são parentes pedunculados das estrelas-do-mar, membros do filo Echinodermata. As três pranchas têm legendas quase idênticas. Aqui está uma da página 54:

“O fóssil crinóide de 345 milhões de anos, idêntico a seus correspondentes modernos, invalida a teoria da evolução. Crinóides que se mantiveram sem mudança por 345 milhões de anos refutam a teoria da evolução, manifestando a criação de Deus como um fato.”

E todas as três pranchas mostram uma bela fotografia colorida de crinóides modernos para ilustrar a proposição. Entretanto, em todos os três casos, o animal moderno retratado não é um crinóide. Sequer é um equinodermo. Não é nem mesmo um deuterostômio (o sub-reino ao qual pertencemos nós e os equinodermos). Os zoólogos os reconhecerão como um verme anelídeo que habita tubos, um sabelídeo.

Na página 402, há quatro fotos de fósseis, corretamente rotuladas como ofiúros. Os ofiuróides são uma das maiores classes de equinodermos, outras sendo estrelas-do-mar, ouriços-do-mar e crinóides. De novo, temos uma legenda-padrão criacionista:

“Este fóssil de 180 milhões de anos revela que os ofiúros têm sido os mesmos por 200 milhões de anos. Esses animais, não diferentes dos que vivem hoje, novamente revelam a invalidade da evolução.”

Aqui temos não apenas uma, mas duas fotografias de animais viventes para ilustrar a falta de mudança desde os fósseis. Um desses animais modernos é de fato um ofiúro. O outro é uma estrela-do-mar! Membro de uma classe completamente diferente de equinodermos e obviamente muito diferente até à menor olhadela.

Finalmente, algo que P. Z. Myers já observou no Pharyngula, e eu incluo uma foto para um relato completo. Na página 244, Yahya deseja mostrar que as tricópteras não mudaram desde alguns insetos preservados em âmbar há 25 milhões de anos. Novamente, a legenda:

“Essas coisas vivas sobreviveram por milhões de anos sem a mais leve mudança em suas estruturas. O fato de que esses insetos nunca mudaram é um sinal de que nunca evoluíram.”

A essa altura, esperaremos alguma coisa realmente muito boa quando olharmos a foto do animal vivo. O que será a ‘tricóptera’ moderna? Uma piaba, talvez? Uma lesma de jardim? Um camarão-rei? Não, de uma maneira é muito melhor que isso: é uma isca de pesca, completa com um anzol protuberante!

Estou perdido em tentar conciliar os valores de produção desse livro caro com a “inanidade de tirar o fôlego” do seu conteúdo. É realmente inanidade, ou é pura preguiça – ou talvez uma consciência cínica da ignorância e estupidez do público alvo – a maioria de criacionistas muçulmanos. E de onde vem o dinheiro?

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Escrito especialmente para RichardDawkins.net. Ver também: post de Forbidden Music a respeito; e fotos de iscas de pesca de Graham Owen.

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Nota do tradutor

Em setembro de 2008, Harun Yahya conseguiu através de seus advogados que um tribunal turco bloqueasse o site de Richard Dawkins na Turquia. A resposta do portal de Dawkins foi traduzir o presente artigo para a língua turca.  Em 23 de setembro, Yahya declarou que “todos os terroristas são darwinistas”. Em outubro, Dawkins proferiu uma palestra sobre o ‘Atlas da Criação’ de Oktar (Yahya) numa conferência do Conselho de Ex-Muçulmanos da Grã-Bretanha.

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