Quem não pensa em política não tem escolha: genes e acidentes decidem por você
Descobertas sobre o acoplamento política-personalidade mostram que, sem escrutínio racional, o que acreditamos é um mero acidente
Na semana passada, Clarion de Laffalot, um comentarista sensato presente há mais de uma década nos debates públicos das redes sociais brasileiras, respondeu a uma pergunta de um de seus seguidores sobre a diferença de inteligência entre a “esquerda” e a “direita”.
“Eu acho que, no geral, a pessoa que é antiesquerda ou é muito burra ou é bem acima da média (o que não necessariamente implica genialidade). Você também observa esse padrão?”, perguntou o seguidor.
A resposta de Clarion foi caracteristicamente de boa qualidade, baseada em senso comum (senso comum, ao contrário do que você pode ter ouvido por aí, acerta muito mais que erra). Para ele, essa impressão acontece porque “as burrices de esquerda são ‘normalizadas’ e travestidas de um certo ar de seriedade que é repetido pelos professores e pela classe artística/jornalística”.
Vale ler na íntegra o resto da resposta:
“Uma pessoa pode repetir uma crença absurda de esquerda, como por exemplo ‘a inflação é causada pela ganância dos empresários’, e não vai passar pelo mesmo ridículo de quem diz que a Terra é plana ou que vacinas causam autismo, porque a crença ridícula de esquerda é aceita como ‘normal’ e até como ‘verdade’.
Uma pessoa de esquerda pode afirmar com confiança que não existem diferenças comportamentais entre homens e mulheres, e ainda aparecer para dar entrevista em algum programa na Rede Globo, falando com ar sério e sendo ouvida atenta e respeitosamente pelos apresentadores.
Isso passa a impressão que as burrices de esquerda são menos burras do que realmente são.”
Endosso essa resposta completamente. É uma forma astuta de observar os efeitos do viés político dominante nas principais instituições culturais. A opinião é corroborada por este gráfico que produzi, com três fontes:
Este texto é meu complemento aos insights de Clarion e seu seguidor.
Acidentes e genes
É verdade que crenças de esquerda/progressistas têm correlação com QI mais alto. Ao mesmo tempo, têm correlação com infelicidade — os conservadores são mais felizes. Ambos os efeitos, contudo, são pequenos nos estudos mais rigorosos.
Isso não é uma prova de que “ignorância é felicidade”, como poderia alfinetar algum progressista. As coisas são muito mais indiretas. As ideologias políticas das pessoas, quando adotadas como cartilha pronta, dependem de dois fenômenos principais: um efeito parecido com a deriva genética — por acaso o grupo social em que a pessoa está sacralizou certas crenças políticas e ela dança conforme a música — e outro que podemos chamar de “atrator personalidade-política” em que a genética não é apenas uma metáfora, mas uma realidade.
Creio que o filósofo Michael Huemer está correto sobre como exatamente os genes contribuem para as crenças políticas: é pela via das bases genéticas da personalidade, com a condição de que a pessoa se deixe levar por suas tendências inatas. Quem aplica a racionalidade de forma sistemática a suas crenças tenderá a mudar de ideia sobre alguns temas e formar combinações surpreendentes como “evangélico vegano”, ou seja, serão pessoas que se afastarão das cartilhas prontas. Como esta é uma minoria, os padrões gerais seguem o esperado.
Antes que adotemos explicações que enfatizem a escolha individual e o ambiente (uma tendência quase universal, pois ninguém quer se ver como escravo das circunstâncias acidentais), é preciso lembrar que o próprio QI tem a ver com genes.
Como resumiu um estudo com informações genéticas (escores poligênicos) de 2024: “Dentro de famílias, a inteligência é fator preditor de crenças de esquerda”; “Preditores do QI no DNA também predizem crenças políticas dentro de famílias” e “Nossos resultados implicam que a predisposição genética a ser mais inteligente causa crenças de esquerda”.
Para quem quer insistir que QI não mede inteligência em nenhum sentido claro, indico este livro de introdução ao tema do pesquisador britânico Stuart Ritchie.
A influência dos genes também fica óbvia quando se considera, por exemplo, a polarização política entre os sexos em países como Coreia do Sul, Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido.

(Nota: este estudo sobre países europeus complica um pouco a história contada no gráfico acima. A polarização política entre os sexos nos últimos anos parece claramente verdadeira para países como Dinamarca, Estônia, Finlândia, Eslovênia e Suécia, mas nem tanto para Reino Unido e Alemanha.)
Apesar da birra do pessoal da “construção social”, a principal diferença entre homens e mulheres não é cultural, é biológica, com raiz na diferença de um cromossomo inteiro e na anisogamia. As diferenças culturais vêm como uma nota de rodapé que pode exacerbar ou frear o que é previsível pela biologia.
Estamos presumindo, aqui, algumas premissas: (1) que a polarização política por sexo tem algo a ver com a ascensão das redes sociais; (2) que o impacto das redes sociais foi diversificar o acesso a informações que desafiem a ideologia política das pessoas; (3) que, assim como acontece em escolhas de carreira, a abundância de informações ou recursos exacerbam a diferença entre os sexos em vez de mitigá-la (é o “paradoxo sexual” discutido por autores como Susan Pinker). Ou seja, quando homens e mulheres estão livres para pensarem o que quiserem e escolherem a carreira que quiserem, no agregado tenderão a seguir suas tendências inatas.
Por que as mulheres seriam mais atraídas pela esquerda? Porque, como sugere a teoria de Jonathan Haidt em “A mente moralista”, ser de esquerda significa priorizar o alicerce moral de oferecer cuidados e evitar danos a grupos considerados oprimidos, algo que evoluiu no ser humano justamente do nosso interesse em cuidar de crianças, um interesse que é mais pronunciado nas mulheres, como mostram as escolhas de carreira no “paradoxo sexual”.
Em conclusão, o fator de atração entre personalidade e crenças políticas pode ser pensado como aquele brinquedo infantil em que blocos com formatos específicos precisam ser encaixados em respectivos buracos com formatos específicos. Os blocos são as tendências inatas, os buracos são as ideologias políticas.
Você não quer ser um homem típico, uma mulher típica, um esquerdista típico ou um direitista típico? Então, como disse o oráculo, ouse saber.
Inteligência não é sabedoria
A principal teoria científica da personalidade hoje na psicologia é a “Big 5”, que atribui à personalidade cinco componentes principais resumidos com a sigla em inglês OCEAN: abertura a novas experiências, conscienciosidade (característica de quem é “caxias”, metódico e organizado), extraversão, agradabilidade e neuroticismo (tendência a emoções negativas).
Progressistas e conservadores são diferentes especialmente em abertura e conscienciosidade. Progressistas/esquerdistas têm maior abertura, conservadores são mais conscienciosos.
Das cinco características da personalidade, a abertura é a única com uma correlação positiva clara com o QI. Ou seja, pode não ser exatamente o caso que progressistas/esquerdistas são mais inteligentes, pessoas mais abertas a novas experiências é que são. A relação da inteligência com o progressismo é, assim, possivelmente apenas um acidente.
No mais, inteligência não é garantia de portar a verdade. O que a inteligência e a abertura dos esquerdistas faz com eles é que os tornam mais propensos a defender ideias mirabolantes com astúcia verbal, mesmo que seja uma coisa tão idiota quanto bloquear puberdades de crianças disfóricas ou “propriedade pública dos meios de produção”.
Pessoas inteligentes são melhores em defender com argumentos o que acreditam. Mas o que acreditam pode ser uma completa besteira.
Eu diria até que a proximidade dos conservadores com o senso comum lhes dá uma vantagem nesse aspecto. Como diz a filósofa Susan Haack, a ciência é um braço longo do senso comum, é o senso comum turbinado com técnicas acumuladas há cinco séculos. O senso comum é geralmente um excelente ponto de partida para se descobrir a verdade, pois ele é feito da convergência de múltiplas mentes independentes pensando no mesmo problema, ao contrário da ideologia, que vem de poucos arquitetos e se espalha dali.
Pode ser esse respeito pelo senso comum que torna os conservadores mais felizes. Eles podem dormir tranquilos sabendo que a sociedade não foi feita de propósito para persegui-los (embora as elites progressistas possam ser). Compare isso com um caso que eu observei de uma pobre garota lésbica da Universidade de Tocantins.
Há cerca de uma década, ela tirou a própria vida e deixou uma carta de despedida dizendo que ela era impotente diante do “patriarcado lesbofóbico supremacista branco” e outros adjetivos que progressistas usam para demonizar o status quo e o senso comum.
Não estou me comprometendo com a ideia de que a posição conservadora é sempre a mais sábia a se ter. Na verdade, eu penso que a heurística liberal é a que se sai melhor para responder à maioria dos dilemas sociais. Também não acho que o progressismo está errado sobre tudo, embora seja a corrente política que mais me incomodou nos últimos dez anos.
De qualquer forma, uma pessoa que se torne conservadora por interesse em ser mais feliz ou se torne progressista por interesse em ser mais inteligente está errando por inverter a provável ordem das coisas.



Mais uma ótima “carta”, como de hábito bem escrita e fundamentada por referências de inegável credibilidade. Com efeito, duvidar da inteligência dos esquerdistas/progressistas, pode ser um grave erro, tanto do ponto de vista tático como estratégico. Nazistas, que por acaso também são socialistas, igualmente podem ser bem inteligentes. Ocorre que com relação à inteligência, cabe sempre perscrutar e de forma diligente, sobre a respectiva natureza (caráter em sentido lato), manifestação social, equilíbrio emocional, compreensão dos limites, possibilidades, contradições e paradoxos, bem como das consequências diante da realidade que não raro nos surpreende mais do que gostamos de admitir, mas que invariavelmente os progressistas visam “transformar”, na maioria das vezes sem a menor noção de viabilidade e dos custos humanos envolvidos. Em geral, a fé religiosa na revolução (sim, fé religiosa!), em meio a um bocado de romantismo e digressão, bem como “ressignificação” semânticas, atua historicamente como mediadora central da inteligência progressista, impondo ainda crassa incapacidade de autocrítica diante das tragédias individuais, e também das grandes comoções sociais provocadas por suas ideias, sobretudo quando fautoras das indefectíveis “políticas públicas”. Isso admitindo-se que atuem de boa-fé, posto que não são raros os casos da alta inteligência de progressistas, que eventualmente são também psicopatas muito bem preparados intelectualmente. Enfim, trata-se de um tema com possibilidades para várias abordagens, e como você bem escreveu, ser mais inteligente não significa estar necessariamente mais próximo da verdade. Stephen J. Gould também escreveu que apesar da valiosa qualidade da inteligência humana, ainda assim deveríamos ser mais humildes, já que os dinossauros viveram por cerca de 160 a 165 milhões de anos no planeta, enquanto a humanidade teria na melhor das hipóteses, não mais do que 4 milhões de anos caminhando sobre na Terra, isso desde que incluídos os hominídeos.
Nossa que saudade das cartas do Eli!! Amei!! Obrigada 🙏🏻