Érika Hilton é mulher do mesmo jeito que um cavalo-marinho é cavalo
Vamos nos atualizar sobre algumas evidências a respeito da natureza da transexualidade
Ao contrário do que dizem as más línguas (geralmente identitárias), não sou “reacionário”. Mas sou reativo. Quando vejo uma besteira particularmente escabrosa sobre algo do meu interesse, preciso responder.
A besteira de hoje é um artigo de Thiago Amparo, colunista da Folha de S. Paulo e advogado. Amparo, conhecido por ter tido um acesso de tremedeira quando Leandro Narloch publicou uma resenha de um livro de Antonio Risério no jornal, pois o livro ofendia seus dogmas de identitário, hoje resolveu falar em nome da ciência para defender a deputada Érika Hilton.
Respondendo a quem chamou a deputada de “homem biológico”, Amparo disse, em sua coluna, que “Definir mulher como quem tem útero ignora décadas de ciência interdisciplinar”.
Minhas reações imediatas a isso:
Pudera, já que “interdisciplinar” com frequência significa “sem rigor metodológico”. Deveria ser algo ecumênico entre áreas, eu sei, mas a moda da interdisciplinaridade com frequência caiu nisso nos últimos anos.
Não é uma boa ideia definir mulher como “quem tem útero”. Por esse critério, minha mãe deixou de ser mulher nos anos 1990. Minha aposta é que absolutamente ninguém propôs isso, Amparo está atacando um espantalho.
A segunda chamada da coluna, como não poderia deixar de aparecer em texto de ideólogo identitário, é uma ameaça para quem discordar: “Qualificar como homem quem a lei permite se identificar como mulher é passível de punição”.
O Congresso brasileiro está no momento sofrendo de um tsunami de projetos de censura inspirada pela ideologia woke. Só de criminalização da “misoginia” (leia-se, expressões que forem lidas subjetivamente como “misóginas”) há cerca de 30 projetos de lei.
O identitarismo é inimigo da liberdade e passou os últimos anos se fingindo de amigo ao se colocar como única alternativa a populismos nacionalistas e atitudes preconceituosas e intolerantes. Isso, como fartamente documentei no meu livro, é uma fraude.
Mulher trans é mulher? O que a ciência — não a interdisciplinar — de fato diz
Nenhuma quantidade de autoritarismo identitário, censura, multa ou prisão contra críticos vai servir para assentar a questão sobre a proximidade ontológica entre mulheres trans e mulheres (sem qualificativo).
Essa questão é eminentemente filosófica, por um lado, mas também empírica, por outro.
Não sabemos se algo acontece no cérebro que explique a existência da disforia. Há evidências para os dois lados: núcleos do hipotálamo podem sugerir que sim, mas a massa cinzenta pode sugerir que não. Os estudos são cheios de incertezas.
A primeira vez que me debrucei sobre o assunto foi por volta de 2012. Li uma revisão de 2011, de Ai-Min Bao e Dick Swaab, em que sugeriram que o volume do terceiro núcleo intersticial do hipotálamo, uma parte do cérebro associada ao sistema nervoso autonômico e à regulação hormonal do organismo, era similar entre mulheres trans e mulheres. Quando palestrei sobre a biologia da transexualidade para o Sindicato de Professores do Espírito Santo em 2014, mostrei o gráfico adaptado abaixo, tirado da revisão.
Mostrei, também, a conclusão de Bao e Swaab:
“As observações apoiam a teoria neurobiológica sobre a origem da transexualidade, isto é, de que são os tamanhos, número de neurônios, funções e conectividade de estruturas cerebrais, não o sexo dos órgãos sexuais, certidões de nascimento ou passaportes, que correspondem à identidade de gênero.”
Contudo, no slide seguinte, eu pedi cautela nas conclusões (verbalmente, devo ter apontado que as amostras eram muito pequenas) e disse “Nós ainda não sabemos o suficiente”.
Eu também sabia de outros resultados, como um estudo liderado por Eric Vilain que mostrara, em 2009, usando ressonância magnética, que os cérebros de mulheres trans ainda não tratadas com hormônios (o que é importante para mostrar se há diferença não induzida por eles e anterior ao tratamento de transição) são, na verdade, mais semelhantes ao cérebro de homens que de mulheres. No caso, a comparação dizia respeito à variação localizada de matéria cinzenta. Um estudo não necessariamente anula o outro.
Falemos então do que mais se descobriu uma década e meia depois. Em 2021, uma revisão de 39 estudos sobre identidade de gênero e 24 sobre orientação sexual, chefiada por Maria Valdés Hernández, concluiu que “algumas características neuroanatômicas, neurofisiológicas e neurometabólicas em indivíduos transgêneros se parecem com aquelas do gênero de sua experiência”, ou seja, há características cerebrais em que mulheres trans se parecem mais com mulheres do que com homens. Contudo, “a maioria [das características] se assemelha àquelas de seu sexo natal”.
Em 2020, outro estudo de neuroimageamento, liderado por Dominik Grotegerd, mostrou que mulheres trans diferiam no cérebro tanto de mulheres quanto de homens. “Nossos resultados apoiam a hipótese de que a estrutura cerebral em mulheres trans difere da estrutura cerebral de seu sexo biológico (masculino) assim como de seu gênero percebido (feminino)”, disseram os autores. Ou seja, o estudo sugere que transexuais têm um fenótipo atípico para ambos os sexos.
Há um problema com esse tipo de estudo: geralmente, ignora a tipologia de Ray Blanchard, estudioso que propôs que transexuais com sexo cromossomal masculino vêm em dois tipos: transexuais homossexuais e autoginéfilas. Expliquei a tipologia no meu livro e neste fio de Twitter. Para resumir: o primeiro grupo sente atração por homens, o segundo, por mulheres — o que explica a raiz de muitas das rusgas políticas a respeito de inclusão em vestiários, banheiros e prisões femininas.
Na minha opinião, a tipologia de Blanchard provavelmente é verdadeira e, portanto, é salutar fazer essa classificação antes de juntar mulheres trans todas num só grupo e analisar suas características cerebrais.
Está bom por hoje de revisão da literatura científica. A lição para levar para casa é esta: não sabemos o suficiente. A transexualidade depende de mais entendimento da raiz profunda da realidade que é o dimorfismo sexual no cérebro e no comportamento. Ou seja, é um fato que homens e mulheres não são idênticos na morada biológica da alma, e precisamos entender melhor essas diferenças para também poder explicar a transexualidade — ao menos aquela que é espontânea e acompanha a humanidade desde seu nascimento.
Compare as informações acima com a rasura da coluna de Thiago Amparo. Ele reclama até do termo “sexo biológico”, que aparece em alguns desses estudos científicos, e alega que é apenas um vocabulário do “identitarismo feminista radical americano”. Da minha parte, fico feliz que identitarismo tenha se tornado uma coisa impopular o suficiente para um notório seguidor da ideologia usar seu nome como xingamento. Estamos avançando!
Sabe o que é pior que o termo “sexo biológico”? O termo “gênero”, que, se não for tratado como sinônimo de sexo, não tem mais razão de ser. Foi um termo criado mais por compromissos ideológicos que científicos.
Há anos, tenho penando que, em vez de fingir que conseguimos separar o que é cultural do que é biológico, para dar a cultura ao gênero e a biologia ao sexo, é melhor separar o sexo em suas várias facetas: sexo cromossomal, sexo histológico, sexo fisiológico, sexo cerebral, sexo social e assim por diante, a depender da sensatez e utilidade do adjetivo. Descobri recentemente que não sou o único. Hermes Rodrigues de Alcântara, por exemplo, fez o mesmo em seu livro “Perícia Médica Judicial”:
A heurística do cavalo-marinho
O grupo que mais atrapalha a pesquisa sobre o assunto é o dos adeptos do progressismo identitário, tanto por quererem bater o martelo cedo demais que a resposta para “mulheres trans são mulheres?” é sim, passando a perseguir quem disser que não, quanto por, em subgrupos rivais, alegar que diferenças cerebrais entre homens e mulheres ou não existem ou são uma “construção social” do patriarcado. A biofobia da esquerda, seja no lado “queer” ou no lado "TERF", tem consequências.
Parece ter sido uma má decisão de alguns sexólogos e médicos tratar autoginefilia como algo comparável à transexualidade homossexual. Aqui, de novo, o ativismo atrapalha ao atacar os cientistas que propuseram essa classificação, acusando-os de todo delito moral sob o sol por ousarem olhar para o assunto com objetividade.
Como contei no meu livro, até nos anos 1970 os próprios transexuais observavam por si mesmos essas duas categorias nas clínicas. A autoginefilia, possivelmente, não deveria nem ser considerada um tipo de transexualidade, mas interessa a uma parcela influente de autoginéfilas que sejam confundidas com transexuais homossexuais.
Mulher trans é mulher, ou é comparável ao cavalo-marinho, que não é cavalo? Deixando ciência de lado um pouco, para fins legais, como evitar as autoginéfilas violando normas sociais sobre frequentar banheiros e vestiários (não estou dizendo que são todas na categoria que violam essas normas), a segunda resposta se revela mais útil no momento.
Não acho que o senso comum precisa esperar pelo “consenso científico”, nem pelo debate jurídico: a resposta curta e rápida, a heurística preferível, é de novo a do “cavalo-marinho”. Neste nível de comunicação e pressupostos, “mulher trans” significa “homem que quer ser mulher”.
Como dizia minha falecida amiga trans homo, Ágata Cahill, vítima da leucemia: “se sou mulher eu não sei, o que eu sei é que quero ser”.
A analogia do cavalo-marinho não é para ser ofensiva, aliás. Há uma razão pela qual chamamos assim o animal: ele, de fato, lembra um cavalo.
Isso não é um endosso à grosseria. A decisão de até que ponto vai a cortesia ao grupo é individual. Se um indivíduo estuprou mulheres, para mim é o Tonhão, jamais a Samanta.
Pessoalmente, eu não faria algo como aparecer com uma peruca para criticar a moda progressista que até inspirou ativismo judicial no STF. Mas eu também não fingiria que Érika Hilton é uma oprimida sem poder que deve ser protegida com a arma da censura contra seus críticos (que ela está sempre ávida por usar). Muito pelo contrário: ela tem poder e persegue críticos usando o vocabulário do cuidado de forma cínica e calculista.
Transexuais, xingados por identitários fanatizados que não têm disforia sexual de “transmedicalistas”, merecem líderes melhores, movimentos melhores que alegam atuar por seus direitos, ciência melhor e um debate melhor, também.






